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abril 01, 2006

Falemos então:

Sumário Lírico

Nesta janela de ver passar os barcos em vidraças,

começo devagar a reescrever o mundo quedo

que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.

Ninguém me deu outras formas que não minhas

mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.

Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.

E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos

mas autores cada um no seu frasear, generosos

quando me reconheciam em muitos anos de vida.

Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes

caladas para sempre nos livros em que as lera.

Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos

de cada olhar de imagens próprias de cada um.

Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,

os barcos na Barra, que também em vidros estavam.

Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,

que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,

quando o dorso de prata e o gume passavam

nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,

de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.

Imagens que sempre ficais nestas vidraças,

emprestai vosso vidro e revérbero à luz

do farol extinto, em outras vidas que antes

narravam que eu era já nascida,

quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.

A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas

com a noite embebida, tantas vezes co-substancial.

É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,

diariamente somando anos, minutos indivisos.

Mas, cisco no vidro, pela lei da perspectiva, ponto.


FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO


Le rêve de Stepan Razine

Publicado por samartaime às abril 1, 2006 10:30 AM

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