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outubro 25, 2007
INÊS LOURENÇO :
os cornos pelos nomes no cieiro da ternura

[Capa:VST/OF sobre fundo de William Morris]
Avulso
O sr. Moura abria o maço de Português
Suave sem filtro, para vender cinco cigarros
avulso a um homem de boné. O sr. Moura
chamava discretamente o amigo polícia, ao fundo
da loja para lhe oferecer um tinto, embora
não tivesse alvará para
servir vinho a copo.
Muito do que hoje se
compra por inteiro
em embalagem certificada
e com prazo de validade, era
vendido avulso, desde
o quartilho de leite, às postas
de bacalhau de molho, aos
cinco tostões de goma arábica
ou à folha de papel almaço.
Ainda se vivia sem o plástico, e os
cartuchos de cinza pardo, sob o
olhar do merceeiro de lápis na orelha,
eram pesados na balança pelo
marçano de manguitos
e bata de riscado, que aviava
os meios-quilos, a meia-dúzia,
o quarteirão.
Um anónimo de fato coçado e
velho chapéu de feltro, vinha todos
os quinze dias trazer o novo
fascículo das Duas Órfãs ou
de Os Miseráveis. As putas
ainda não andavam a atacar
na rua, mantinham-se no
lendário 515 e noutros números
indecentes - que as mulheres honestas fingiam
desconhecer - sujeitas
à enzemina da brigada sanitária
para quem trabalhavam de graça . Os
pobres
estendiam as mãos escuras à saída
da missa ou tocavam no batente
a pedir qualquer coisinha. E cresciam
filas para as sobras do rancho
à porta dos quartéis.
(Chegados a este ponto
de Avulso, os leitores
amantes de ambiguidades
várias ou da luminosa literatice mística,
devem estar à procura
do rigor poético)
Mas esse tempo do fim
dos anos 40
trazia a profecia embargada de uma
diferença qualquer. Que juntasse
ao menos os fascículos de
As Duas Órfãs e de Os Miseráveis e os
20 cigarros do Português Suave sem filtro.
Unisse as putas contra a brigada
sanitária. Que nos deixasse
esbanjar o papel almaço. Transformasse
o quarto de quilo de sabão amarelo
numa lâmpada de Aladino
e deitasse ao lixo os pedaços de
pão seco sem medo do pecado
do desperdício.
Hoje tudo está muito diferente?
E muito semelhante? Fascículos e
embalagens, dias e noites
avulso são agora o ar do tempo
e as formas de desejar.
Narram os novos fascículos, que
as Duas Orfãs
fizeram implantes mamários
para gravarem a próxima telenovela,
fornicam com empresários de sucesso e
vão de Férias às Caraíbas.
Ítaca sem gatos
Nenhum gato reconheceu Ulisses no
seu regresso a casa. Nem consta
que algum brincasse com os novelos
que a mulher dobava e desdobava
durante a longa ausência para
iludir os pretendentes. Por isso
me soa estranha a Odisseia e o
regresso a Ítaca sem o festivo içar
da cauda dum gato
Amáveis (de amar)
D. Fuas o gato de Jorge de Sena e
Coral o gato de Sophia ou
a gata Maravilhas de
João Miguel Fernandes Jorge e os
de tantos outros como Baudelaire ou Eliot,
amáveis (de amar) mas ferozmente
independentes, olham-nos
dos poemas com aquelas luzentes e atentas
contas de vidro (podia aqui comparar com ágatas
ou opalas, mas não quero entrar
no joalheiro).
Eles são talvez os mais puros
aristocratas entre os animais de companhia.
Tratam do próprio pêlo com minuciosos cuidados,
mesmo que não tenham casa certa e
até na extrema míngua conservam
uma distante prudência e unhas afiadas
de quem não se vende facilmente.
E é tanta a sua generosa fidalguia
que nunca desprezam a mão assídua
que lhes afaga o dorso e partilha
o sedentário desprezo do mundo,
mesmo doente velha ou caída em desgraça
INÊS LOURENÇO
in «A disfunção lírica»

Publicado por samartaime às outubro 25, 2007 09:56 PM