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março 25, 2008

Escola... de quê?



Finalmente alguém deu pelo facto de nas escolas públicas haver duas espécies de desmandos:

os derivados da pura falta de educação familiar dos alunos e que tende a agravar-se em grupo;

e os autênticos focos de marginalidade e violência.

O caso da Escola Carolina Michaelis é um exemplo perfeito dos extremos a que pode chegar a «má educação geral»: o quero-posso-e-mando de uma aluna leva-a ao método do empurrão para cortar o passo e agredir a professora por causa de um telemóvel. Tudo isto acompanhado de uma inaudita guincharia da menina e da risota desbragada dos colegas que, entretanto, vão lançando achas a preceito. Um colega mais cinéfilo aproveita a cena para rodar um documentário neorrealista sobre «comportamentos desviantes na sala de aula» e corre a publicitá-lo no You Tube esperando os louros da homérica façanha. E teve-a: conseguiu uma prova documental isenta (leia-se «dos alunos») sobre aquilo para que os professores chamam a atenção há anos e que pais e tutela encobrem ou desvalorizam.

Mas há muito pior do que o Episódio da Carolina:
há alunos «empurrados» de outras escolas para «limpeza de ambiente», o que origina escolas «depósito» de alunos em dificuldades várias;
há gangs dentro das escolas que roubam e sovam outros alunos;
há os que passam droga ou a vendem à porta desta ou daquela escola;
há elementos ou acompanhantes de gangs extraescolares;
e há os alunos de pulseira electrónica.

Evidentemente que os casos mais extremos não são a rotina da generalidade das escolas.
Mas é bom que se tenha em conta que assim como a «má educação» propicia comportamentos desviantes graves, também a rotina dos comportamentos desviantes favorece a marginalidade e a violência.

E «os pais» são outro ponto a ter em consideração: é que também há marginais com filhos. E também os marginais tem filhos nas escolas - felizmente!
E não façam sorrisos entendidos e piscadelas de olho: a marginalidade verifica-se em todas as classes sociais – é como a violência sobre as mulheres, esqueceram?

Foi a «instabilidade» crescente nas escolas públicas que levou os pais mais segregacionistas e/ou timoratos e/ou prudentes a retirarem os filhos da escola pública para os colégios - mesmo os pais que sabiam que era na escola pública que estava a grande maioria dos professores com maior preparação científica e pedagógica. Depois, também sabemos, tornou-se moda e colateral correnteza de vaidades e exibições. Hoje é cada vez mais difícil aos pais não fazerem o impossível para evitarem a escola pública. Embora existam escolas públicas que conseguiram passar o tumulto democrático com poucas interferências e «alguma imaginação» nem sempre muito democrática. Mas tudo bem só no reino de Pangloss.

Sendo a escola uma reprodutora da sociedade e por conseguinte um seu espelho, uma escola democrática teria forçosamente de passar por esta crise. E nenhum governo foi capaz de ter um ministério da educação à altura das circunstâncias. Não vale a pena chorarmos sobre o leite derramado, é preciso andar para a frente.

Hoje, temos técnicos que conhecem profundamente o meio, os recursos e as dificuldades e que conhecem também variadas experiências que falharam onde, como e porquê. Por certo não será uma classe igualitária nem será desejável que o seja. Mas são os ÚNICOS técnicos que temos – e não se vê que possamos esperar outros trinta anos por uma geração finalmente redentora da educação nacional.

O que é inadmissível é que exactamente os professores, a classe profissional determinante para o futuro, tenha uma tutela mais preocupada com a imposição das suas vaidadezinhas intelectuais provincianas do que interessada em definir projectos e estratégias e discuti-las e aferi-las com os professores.

O que é execrável é todos os dias ouvir retirar autoridade aos professores enquanto se palra sobre o reforço da autoridade na escola.

O que é execrável é ver que os professores precisam e pedem reforço e formação para poderem exercer a sua actividade convenientemente ajustada às novas exigências postas pela alteração social e tecnológica, enquanto a tutela lhes responde com horários, fichas, substituições, títulos e outras mesquinhices lazarentas e jericocéfalas, próprias de quem acha que o futuro e a salvação da pátria estão na «pedagogia do carregar pela boca» de crianças, adolescentes e professores.

Entretanto, aqui mesmo ao meu lado, oiço o brilhante e gracioso Sr. Valter Lemos na TV explicando «aos portugueses» que:
a droga não vem da escola, vem do exterior;
os gangs não são da escola, são das redondezas da escola;
as escolas são locais seguros e tranquilos

Este senhor terá consciência plena do que realmente diz?
Este senhor está a falar para quem? Para os bairros sociais? Para a campanha «Escola Segura»? Para os pais que optaram pelos colégios? Para a banalidade dos dealers? Para a apatia dos jovens enquanto alunos?

Para completar o quadro democrático, evidentemente, a TV intercalado as declarações do Sr. Valter Lemos com o parecer do Procurador Geral da República sobre a preocupante proximidade entre a escola e a marginalidade.

Mas tenhamos esperança:
o Sr. Procurador já mando instaurar processo.
E a Srª Ministra vai, pela certa, desencantar gestores capazes e que - no caso das escolas mais envolvidas pelas redondezas - poderão ser assessorados por um polícia reformado à paisana, obviamente.

Publicado por samartaime às março 25, 2008 11:44 AM

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