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julho 02, 2008
A Drª Ferreira Leite e os homossexuais
Disse a Dr.ª Ferreira Leite na TV - e o Público, qual espadilha, confirma - ,
que não tem nada contra a homossexualidade. Entendo-a: como qualquer tecnocrata foi clara, eficiente e banal.
No seguimento do seu raciocínio e já um tanto agastada pelo peso do esforço de entendimento, adiantou a Dr.ª Ferreira Leite que, no entanto, é contra o casamento legal entre homossexuais.
Aqui, baralhei-me.
A Dr.ª Ferreira Leite defende, implicitamente, dois tipos de casamento: o legal e o ilegal. E é aqui que a porca torce o rabo: não entendo essa figura do casamento ilegal. Sempre pensei que o casamento ou era ou não era. O casamento ilegal é que não entendo mesmo: lá vou ter de esperar que o Pacheco Pereira troque em miúdos essa complexidade inóspita!
A Dr.ª Ferreira Leite mais uma vez me azedou o leite sem que lhe veja utilidade.
Querem ver que eu, que sou contra o casamento, que vivo há 30 e tal anos com a mesma pessoa, não querem lá ver que, calhando, não só estou casada contra a minha vontade como ninguém se lembrou de me participar o tal do meu casamento e, ainda por cima, só 30 anos depois, qual Conde de Monte-Cristo do matrimónio, sei que estou num casamento ilegal?
E isso dá direito a quê?
A prisão preventiva?
A cadeia?
A pulseira electrónica?
A estrela amarela ao peito?
A cruz roxa na testa?
Não contente, a Dr.ª Ferreira Leite com receio de não ter sido suficientemente explícita esclareceu «que não se pode dar o mesmo estatuto» - aos homossexuais, evidentemente.
Que nisto do estatuto é que reside o busílis do desempenho ou não do papel – sociologicamente falando;
e, muito paralela e popularmente dito, de ter ou não ter papel passado - civilmente falando.
No Teatro, o faz de conta da vida, o problema não se põe: qualquer homossexual pode, com toda a dignidade, representar o papel de casado e dar um enxurro de porrada na mulher que nem a ASAE se alarma.
Mas podemos muito bem à saída ouvir comentários do tipo: «Viste como o cabrão do maricas fez aquilo bem?».
Estes comentadores são os seus companheiros de ocasião, Dr.ª Ferreira Leite.
Esperava melhor da sua capacidade.
Na Vida a homossexualidade existe, simplesmente.
E os «actos que definem socialmente a homossexualidade» são ainda mais comuns e correntes do que os tecnocratas e burocratas da moral vigente sempre pretenderam e pretendem fazer crer.
Olhe à sua volta, olhe os seus pares, olhe o seu povo.
Não lhes olhe as carteiras: olhe-lhes «as cadeiras».
E quando, desassombradamente embora, voltar a assumir que pretende discriminar os homossexuais unicamente pela sua diferença, lembre-se que é concorrente a um lugar político.
E que mesmo eu, que não gosto do político José Sócrates, votaria nele contra si.
Publicado por samartaime às julho 2, 2008 12:05 PM