fevereiro 23, 2009
Quatro Poemas de Robert Schindel
versão portuguesa de João Barrento
publicados na revista Telhados de Vidro, nº11, Novembro 08;
Ed. AVERNO
ESTILHAÇOS, INFÂNCIA
Era a infância, eram cenas de morte
Enforcaram-me o pai – primeira parte.
E veio a mãe do campo de concentração
Passou-me a mão pelo Eu, mas eu já não
Estava lá, deambulava por paixões
Desmoronaram-se as escolas, fortalezas
Da vida. E os ventos de rebeliões
Nasceram delas, e ondas de fraquezas
Fui cair entre os filhos do Homem
Depressa tive sonhos avermelhados
Beijos de camaradas com palavras de ordem.
Vão até à infância as sombras do futuro
Das árvores de Marx e Lenine, toldando-me o presente:
Hoje fumo e faço filhos com as pedras ancestrais.
LAMENTO À SOMBRA DE AVES ASTRAIS
Nos becos da cidade, em tempo
De rostos leitosos e também já de abutres
Os que a desolação deixou vazios
Ciciam de dentro das suas vidas de cera
O seu falso saber. O grito palavroso
E assim os sóis atravessam miríades de estrelas, destinos,
As árvores ácidas gemem sob o peso da estranheza
E nós nunca estamos neste aqui, neste agora
Jamais. É o embate
Da folhagem da alma com os astros.
Por todo o lado se ouve o grasnar
Dos que habitam o ermo do mundo
Chegam-nos por alamedas bocejantes
Seres de cinza que sobem dos becos
Da cidade no tempo dos abutres
- E o pensamento azeda-se-me no coração.
REQUIEM POR UMA AMIZADE
Morreu o meu hóspede, vejo-o ainda a descer, a descer
Pelo caminho abaixo com a distância nos cabelos,
E de noite, quando as estrelas o permitem, serpenteia, serpenteia
O seu eco no coração, morreu o meu hóspede.
Um riso, um sapato, o violino de estar aqui
Bebíamos um copo ou dormíamos nas palavras mais novas
E havia segundos que fazíamos explodir
Saltar a lama do tempo, para assim o podermos entender.
Agora foi-se, o seu nome descansa, descansa o tempo
Levanto os pés do caminho e vou andando
Às arrecuas pelo atalho, o eco traz-me
O longe e o perto, eu e nunca, o hóspede amigo do lado de lá.
Há por aqui outras paisagens?, perguntam por vezes as crianças.
Eu parto o caminho em pedaços e ofereço-lhes
Serpentinas, serpentinas, que elas recebem como maçãs e papoilas.
Porque tempos houve em que dormíamos nas palavras,
Tempos houve em que fazíamos explodir o tempo.
SOU. 7 (BÊBADO E SEM NORTE)
Bêbado e sem norte aqui estou eu nesta cidade do Meno
Virgula de mim próprio num intervalo da respiração
Queria afundar-me neste ar, mas estou aí completamente só
Bêbado e sem norte a sufocar dentro de mim
Ora, Março passa depressa, crescem as trevas
Da noite minha cúmplice tão grande
Nas cintilações, tão pequena assustada pela luz
E eu suo e sofro enregelado neste lusco-fusco
E sou e sou até à exaustão, não sei ser de outro modo
Sem norte e bêbado, apetece-me gritar o que me rói
Me corrói com murmúrios que me martela como se eu fosse coisa
Mas ai de mim, eu sofro, de lágrima no vinho
E saio para o grande espaço do entre, frio e aprazível
E – enfim apaziguado - volto a encontrar-me

Publicado por samartaime às fevereiro 23, 2009 05:59 PM