« | Entrada | Dia da Poesia »

março 21, 2009


[...]
Eu trabalho nas luzes antigas, em frente
das ondas da noite. Bato a pedra
dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.
É uma raíz seca, canta-se
no calor. É uma idade cor da salsa.
Amarga. Imagino
dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.
Procuro uma imagem dura.

Estou sentado, e falo da ironia de onde
uma rosa se levanta pelo ar.
A idade é uma vileza espalhada
no léxico. Em sua densidade quebram-se
os dedos. Está sentada.
Os poentes ciclistas passam sem barulho.
Passam animais de púrpura.
Passam pedregulhos de treva.
É para a frente que as águas escorregam.

Idade que a candura da vida sufoca,
idade agachada, atenta
à sua ciência. Que imita por um lado
as nações celestes. Que imita
por um lado a terra
quente.
Trabalhando, nua, diante da noite.


Herberto Helder
Ofício Cantante, Lugar, Teoria sentada,III

Herberto_Helder2 por Jose Rodrigues.jpg
Herberto, segundo José Rodrigues

Publicado por samartaime às março 21, 2009 09:48 AM

Comentários

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)