« Moçambique | Entrada | »
abril 06, 2009
Quatro poemas de Alberto Lacerda
Lourenço Marques Revisited
A água que murmura espectros lentos
O que houve e não houve e não volta nunca mais
Os quartos sem esperança que os guardasse
As casas sem anjo da guarda
A luz intensa bela e dolorosa
A adolescência dilacerada
A ternura dezoito anos recusada
Na casa dos Átridas
O crime horroroso que não houve
Mas as feridas abriram manaram um sangue
Que penetra implacável as fendas do sono
E me deixa acordado à beira da estrada
Com lágrimas que percorrem
Trinta e quatro anos
Moçambique
Ó Oriente surgido do mar
Ó minha Ilha de Moçambique
Perfume solto no oceano
Como se fosse em pleno ar
Não encontraste a rua
Não encontraste a rua
Não encontraste a casa
Não encontraste a mesa
No café que alguém
Por engano indicou.
Mas a cidade é esta
E não outra
Não encontraste o rosto
O anel caiu
Ninguém sabe aonde.
A Mouzinho de Albuquerque
Tinhas o germe odioso dos tiranos
O fogo sinistro da intolerância
Mas que era feito duma só palavra
Herói soberbo
Ó árvore gigantesca
Que tu próprio abateste
Em vez dos deuses
Que te contemplam a distância
Alberto Lacerda
Alberto de Lacerda (Ilha de Moçambique, 20 de Setembro de 1928 — Londres, 26 de Agosto de 2007) foi um dos fundadores da revista de poesia Távola Redonda, juntamente com Ruy Cinatti, António Manuel Couto Viana e David Mourão-Ferreira.
O espólio do Poeta encontra-se em Lisboa, na Fundação Mário Soares.
Notícia do falecimento de Alberto Lacerda, no Times
Nota sobre Alberto Lacerda no Independent
Retrato de Alberto Lacerda,
pintura de Rui Filipe (1962)
Publicado por samartaime às abril 6, 2009 10:25 AM