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setembro 14, 2009

Vai-te, vaidade antiquíssima
e fanfarrona


Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lentejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

[...]

Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos,
Que tudo o que nós não somos,

Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realme:nte e mandando tudo...

[...]

Fernando Pessoa, via Álvaro de Campos

Publicado por samartaime às setembro 14, 2009 09:58 AM

Comentários

A cultura pessoana e heteronímica dos outros líderes políticos deve ser à prova de tese de mestrado, em Literatura Portuguesa Contemporânea...
Desde a Velha-do-Restelo até ao Paulinho das Feiras.....
Franquezunha franca!...:)))))))
Abraço
I.

Publicado por: logros às setembro 19, 2009 06:43 PM

Nem por isso a fanfarronada deixa de ser ridicula.
E quanto mais desnecessária, mais ridícula.

Publicado por: samartaime às setembro 19, 2009 07:22 PM

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