novembro 05, 2009

Construtores de labirintos





Tenho de estar completamente só quando penso,
E no parapeito mais alto
Debruçado sobre a rua vazia.
A janela poeirenta da loja lá em baixo
Está cheia de fantasmas ao pôr do sol.

Ali vai o meu velho. Já tem a idade que tenho agora.
De olhos fechados
chama as criadas pelos seus nomes secretos:
Santo Isaac, o sírio,
São Nilo, que escreveu sobre a oração.
O vinho das ambiguidades eternas,
Se faz favor, à saúde do corvo
Sentado no cimo de uma igreja branca.

A sua vida também é um emaranhado fantástico.
Os nossos infortúnios são empreiteiros.
Esquecem-se sempre das janelas,
Fazem os tectos baixos e pesados.
«É só uma lua de papel», cantam...
Mas estou a ir demasiado depressa.

No fim de um corredor escuro
Há um fósforo aceso numa mão trémula.
«Ainda tenho pavor do palco»,
Diz a bela mulher,
E depois guia-nos por entre guarda-roupas
Com espelhos e portas empenadas,
Onde estão pendurados vestidos sussurrantes,
Espartilhos sussurrantes, sapatos com botões -
Do tipo que se usaria para cavalgar uma cabra.

A sua filha, dizem-nos, está tísica.
Há uma marca do polegar oleoso da morte
na sua face angélica:
Ela quer que eu brinque debaixo da mesa
Dos jogadores de cartas silenciosos.

Brincamos e é como o palácio em Cnossos.
A memória, o único fósforo queimado do meu coração:
A sua mão guiando-me nas ruínas,
E as cartas sussurrando sobre as nossas cabeças
Que a nossa juventude e o nosso amor aturdiram.


Charles Simic

Trad. José Alberto Oliveira


Publicado por samartaime às 01:28 PM | Comentários (0)

novembro 04, 2009

Concerto para João Aguardela








(clique para ouvir: )


Aula de dança


Um rapaz mal desenhado


Um feitio de rainha


Dona de muitas casas


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outubro 28, 2009

Laranja cor de sangue




Está tão escuro que o fim do mundo pode estar próximo.
Convenço-me que vai chover.
Os pássaros no jardim estão silenciosos.
Nada é o que parece,
Nem nós mesmos.

Na nossa rua há uma árvore tão grande
Que podemos esconder-nos todos nas suas folhas.
Nem precisaremos de roupas.
Sinto-me tão velho como uma barata, disseste.
Imagino-me passageiro de um navio-fantasma.

Agora nem um suspiro lá fora.
Se alguém abandonou uma criança no nosso patamar,
Deve estar a dormir.
Tudo está a vacilar na borda de tudo
Com um sorriso polido.

É porque há coisas neste mundo
Sem qualquer solução, disseste.
Nesse instante ouvi a laranja cor de sangue
Rebolar pela mesa e com um baque
Cair no chão rachada ao meio.


Charles Simic

Trad. de José Alberto Oliveira





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outubro 06, 2009

Amália




Camões, Amália, Oulman

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou.
Que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado.

Mas chorar não estima neste estado
aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, poi se mudou
em tisteza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que a sofre e sente.

De tanto mal, a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.

Luís de Camões

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outubro 04, 2009

QUE VIVA 'LA NEGRA' !



Mercedes Sosa (Tucuman, 09:JUL:1935 - 2009- 04:OUT, Buenos Aires)




El Condor Pasa
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Gracias à la vida
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Todo Cambia
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Fragilidad
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Alfonsina y el mar
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El Corazon Al Sur
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Ay este azul

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Rio de Camalotes
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Unicornio Azul
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Corazon Libre
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Pajaro Libre



Mercedes Sosa - Biografia e discografia



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setembro 25, 2009

«Barry Lyndon» [Kubrick] ou o traidor

(Banda sonora do filme) adaptação de Piano trio in e flat op. 100 (segundo movimento) de Franz Schubert. Execução de Ralph Holmes/violin, Moray Welsh/cello, Anthony Goldstone/piano.





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julho 27, 2009

Merce Cunningham (e John Cage)



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Merce Cunningham (Centrália, Washington, 16 de abril de 1919 - Nova Iorque, 26 de Julho de 2009)

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John Cage (Los Angeles, 5 de setembro de 1912 - Nova Iorque, 12 de agosto de 1992)



Mondays with Merce Demo

Merce Cunningham--Beach Birds 1

John Cage

John Cage about silence


Mais Sobre Merce Cunningham>

Informação sobre John Milton Cage

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junho 30, 2009

Pina Bausch

( 27 de julho de 1940 — 30 de Junho de 2009)






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junho 19, 2009

Uma rara oportunidade:



Amanhã

Dia 20 de Junho09 , em Lisboa às 23h no S. Jorge cinema-Festival MOSTRA-ME

(bilhetes a 3€);

À FLOR DO MAR, de João César Monteiro.


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junho 14, 2009

Pela voz contrafeita da poesia



Dá-nos os passos os teus passos
de manhã triunfal de cidade à solta
os gestos que devemos ter
quando a alegria descobrir os dedos
em que possa viver toda a vertigem
que trouxer da noite
os primeiros dedos do sonho
do teu sonho nosso sonho mantido
mesmo no mais íntimo abandono
mesmo contra as portas que sobre nós:
em silêncio e noite
em venenosa ternura
em murmúrio e reza
se fecharam já
mesmo contra os dias vorazes
que por todos os lados nos assaltam
e consomem
mesmo contra o descanso eterno
a viagem fácil
com que nos ameaçam vigiando
todo o percurso do nosso sono
interminável sono coração emparedado
no muro cruel da vida
desta que vivemos que morremos
assim esperando
assim sonhando
sonhando mesmo quando o sonho
ignorado recua até ao mais íntimo de cada um de nós
e é o gemido sem boca
a precária luz que nem aos olhos chega

Não digas o teu nome: ele é Esperança
vai até aos que sofrem sozinhos
à margem dos dias
e é a palavra que não escrevem
sobre as quatro paredes do tempo
o admirável silêncio que os defende
ou o sorriso o gesto a lágrima
que deixam nas mãos fiéis

Não digas o teu nome: quem o não sabe
quem não sabe o teu nome de fogo
quem o não viu entrar na sua noite
de pobre animal doente
e tomar conta dela
mesmo só pelo espaço de um sonho

O teu nome
até os objectos o sabem
quando nos pedem um uso diferente
os objectos tão gastos tão cansados
da circulação absurda a que os obrigam

As coisas também gritam por ti

E as cidades as cidades que morreram
na mesma curva exemplar do tempo
estão hoje em ti são hoje o teu nome
levantam-se contigo na vertigem
das ruas no tumulto das praças
na espera guerrilheira em que perfilas
o teu próprio sono


*


Ah
onde estão os relógios que nos davam
o tempo generoso
os dedos virtuosos os pezinhos
musicais do tempo
as salas onde o luxo abria as asas
e voava de cadeira em cadeira
de sorriso em sorriso
até cair exausto mas feliz
na almofada muito azul do sono

Onde está o amor a sublime
rosa que os amantes desfolhavam
tão alheios a tudo raptados
pela mão aristocrática do tempo
o amor feito nos braços no regaço
de um tempo fácil
perdulário
vosso

Hoje não é fácil o tempo
já não é vosso o tempo
viajantes do sonho que divide
doces irmãos da rosa
colunas do templo do Imóvel
prudentes amigos da vertigem
deliciados poetas duma angústia
sem vísceras reais
já não é vosso o tempo.

Noivas do invisível
não é vosso o tempo
Relógios do eterno
não é vosso o tempo


*


Impossível

Impossível cantar-te
como cantei o amor adolescente
colorindo de ingenuidade
paisagens e figuras reduzindo-o
à mesma atmosfera rarefeita
do sonho sem percurso no real
Impossível tomar o íngreme caminho
da aventura mental
ou imaginar-te pelo fio estéril
da solitária imaginação

Tão-pouco desenhar-te como estrela
neste céu infame
dizer-te em linguagem de jornal
ou levar-te à emoção dos outros
pela voz contrafeita da poesia

Impossível

Impossível não tentar dizer-te
com as poucas palavras que nos ficam
da usura dos dias
do grotesco discurso que escutamos
proferimos
transidos de sonho no ramal do tempo
onde estamos como ervas
pedrinhas
coisas perfeitamente inúteis
pequenas conversas de ferrugem de musgo
queixas
questiúnculas
arrotos comoventes


*


Mas de repente voltas
numa dor de esperança sem razão de ser

Da sua indiferença
agressivamente as coisas saem
Sentimo-nos cercados
ameaçados pelas coisas
e agora lamentamos o tempo perdido
a dispô-Ias a nosso favor

Porque é tempo de romper com tudo isto
é tempo de unir no mesmo gesto
o real e o sonho
é tempo de libertar as imagens as palavra!
das minas do sonho a que descemos
mineiros sonâmbulos da imaginação

É tempo de acordar nas trevas do real
na desolada promessa
do dia verdadeiro


*


Nesta luz quase louca
que se prende aos telhados
às árvores aos cabelos das mulheres
aos olhos mais sombrios
falamos de ti do teu alto exemplo
e é com intimidade que o fazemos
falamos de ti como se fosses
a árvore mais luminosa
ou a mulher mais bela mais humana
que passasse por nós com os olhos da vertigem
arrastando toda a luz consigo


Alexandre O´Neill

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Este homem, foi um Homem de palavra clara e directa.
Quando o citarem, citem-no por inteiro, não lhe deturpem a palavra.
Porque se julgam que ele vos serve de biombo, desenganem-se:
é nele que acreditamos e não nos vossos «acidentes de percurso».





Publicado por samartaime às 10:49 PM | Comentários (4)

junho 13, 2009

Dia do poeta e da pintora



Lisboa, 13 de Junho de 1888: Fernando Pessoa

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O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...


Fernando Pessoa, via Alberto Caeiro
(Lisboa, 13 JUN 1888 - 30 NOV 1935, Lisboa)
por João Luiz Roth.gif, por João Luiz Roth



Lisboa, 13 de junho de 1908: Vieira da Silva

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vieira da silva 4 autoretrato de perfil 1942.jpg Vieira da Siva, Autoretrato de perfil.

Maria Helena Vieira da Silva

(Lisboa, 13 JUN 1908 - 6 MAR 1992, Paris)
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Publicado por samartaime às 12:19 PM | Comentários (1)

junho 10, 2009

Dia de Camões


Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floresça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora; e lá na ardente
África estar quieto não o consente.

Esta é a ditosa pátria minha amada,
À qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz aqui comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
e nela então os íncolas primeiros.


Luís de Camões

Os Lusíadas; Canto Terceiro, estrofes 20 e 21



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samartaime, «O Herói Português», óleo s/tela. (Col. Privada)




Joly Braga Santos | Symphony No5 (VIRTUS LUSITANIAE) [I/IV part one]


Lopes-Graça, História Trágico-Marítima, VII - Mar

Publicado por samartaime às 11:44 AM | Comentários (2)

maio 31, 2009

Alexandre O'Neill





Saber viver é vender a alma ao diabo

Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
((Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!

Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

     *    

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...


Alexandre O´Neill

(Lisboa, 19:DEZ:1924 – 21:AGO:1986, Lisboa)
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[Naifa - O ferro de engomar]






Publicado por samartaime às 12:59 PM | Comentários (4)

maio 19, 2009

Mário - Henrique Leiria

[Lisboa, 2:JAN:1923 - 9:JAN:1980, Cascais]


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Rifão quotidiano


Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera!
e zás, comeu-a.


é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar o que acontece.


Mário-Henrique Leiria


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Publicado por samartaime às 08:33 AM | Comentários (1)

maio 14, 2009

Pintores pintores.



Hoje apetecem-me pintores. Pintores pintores.
Mas isso são outras guerras. Que não interessam aos pintores.


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Caravaggio - «Narciso» (1546-48) olio s/tela (113,3x.95cm)


Caravaggio-dentes.jpg
Caravaggio - «o arranca-dentes» - (1607-09), Olio s/ tela (139,5 X194,5 cm)
Galleria degli Uffizi, Florença


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Rousseau, «Surprise!» (1891),Oil on canvas, (130 x 162 cm)
National Gallery, London


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Matisse, La Musique (1910), Oil on canvas,(260 x 389 cm)
Hermitage , St Petersburg.


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Chagall «The Blue Violinist» (24 x 32 in)


dawngold Miro.jpg
Miro, «Dawn Perfumed by a Shower of Gold» (1954)
Watercolor and plaster on composition board, (108 x 54.9 cm.)
San Francisco Museum of Modern Art

Publicado por samartaime às 11:08 PM | Comentários (3)

maio 10, 2009

Conversa inacabada



Biografia de LNJ.JPG
samartaime, «Biografia de LNJ», óleo s/tela,
(92X73cm).1989, Lisboa. (Col.Pes.)




porque certamente morreremos
e seremos como águas derramadas na terra
que não se encontram mais
» Êxodo]

I

Ninguém duas vezes passa o rio
porque os rios se afastam para morrer
ou, correndo nós,
vivemos, disséssemos,
com os rios morrendo.

E com o nível posto
na baixa altura da nascente
incorressem os mares que não
se juntam mais, na mesma igualdade
longínqua.

I I

Dentro de dias morre
mais alguém
para o hermético triunfo
das paisagens.

Então os sitios vão
subindo
povoam-se entreolham-se
desencantam-se.

A órbita apodrece
descrê-se o sol.

Luiza Neto Jorge (*)


«Ninguém duas vezes passa o rio» (*)

Os dias que me igualam
ao correr do rio sob a ponte
na noite azul da Prússia de Mussorgsky
invadem o memorial das margens
como laranjas incandescentes na garganta
e um silêncio de olho de búfalo
trespassando no capim.

Na veia gasta da memória
uma sombra de mim navega
as sete partidas da melancolia
entre desejos esboroados
pétalas espavoridas
e o cântico sumptuoso dos
gestos inerentes.

samartaime




«Dentro de dias morre»(*)

Os barcos escondem-se para morrer
sob a areia mais rente ao dia
num desenho angustiado de conchas
sinais esquálidos do pálido marfim
da lassidão lavrada pelo tempo
no passajar do sol.
Pequenas águas espelham brilhos
abrigam pratas   contam ventos
enredam-se algas, singram búzios
debicam garças e flamingos,
partem insaciáveis gaivotas.

E um cavalo-marinho desliza
os seus olhos tristes.

samartaime






a força da gravidade(*)

A tua gravidade:
o justo peso de que dispões
para rir.

Luiza Neto Jorge (*)





a gravidade do poema

O poema são palavras
que nascem ordenadas
atam
retalham
revolvem
gastam.
Cumprido o ciclo
acabou-se a poesia.

samartaime

(*)Luiza Neto Jorge, [Lisboa, 10 MAI 1939 - 23 FEV 1989, Lisboa],
«Ninguém duas vezes passa o rio» e «A força da gravidade» in«O Seu A Seu Tempo». (Paris,1964-1965); Ed.Ulisseia, Lisboa, 1966.


Barbara, «Marienbad»

Rodrigo Leão - Luiza Neto Jorge : «Magnólia»




Publicado por samartaime às 12:10 AM | Comentários (5)

abril 25, 2009

25 de Abril sempre!



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Zeca Afonso 1.gif


Carlos Paredes.jpg





obrigada

Publicado por samartaime às 12:20 AM | Comentários (0)

abril 23, 2009



Azul (2).JPG

samartaime, «azul» (2), óleo s/tela, Fuzeta, 2008.


Azul (5).jpg
samartaime, «azul» (5), óleo s/tela, Carcavelos, 2009

Publicado por samartaime às 12:55 AM | Comentários (0)

abril 12, 2009



FOTOS 126_ABR_08 001.jpg
samartaime, «Da saia que te fica a matar-me»(pormenor),óleo s/tela, 2009.


Publicado por samartaime às 09:08 PM | Comentários (0)

abril 06, 2009

Ilha dos Amores 1.JPG
samartaime, «Ilha dos Amores», óleo s/tela, 100X80cm,1995.

Publicado por samartaime às 11:42 AM | Comentários (0)

Quatro poemas de Alberto Lacerda



Lourenço Marques Revisited

A água que murmura espectros lentos
O que houve e não houve e não volta nunca mais
Os quartos sem esperança que os guardasse
As casas sem anjo da guarda

A luz intensa bela e dolorosa
A adolescência dilacerada
A ternura dezoito anos recusada
Na casa dos Átridas
O crime horroroso que não houve
Mas as feridas abriram manaram um sangue
Que penetra implacável as fendas do sono
E me deixa acordado à beira da estrada
Com lágrimas que percorrem
Trinta e quatro anos


Moçambique

Ó Oriente surgido do mar
Ó minha Ilha de Moçambique
Perfume solto no oceano
Como se fosse em pleno ar

Não encontraste a rua

Não encontraste a rua
Não encontraste a casa
Não encontraste a mesa
No café que alguém
Por engano indicou.

Mas a cidade é esta
E não outra

Não encontraste o rosto

O anel caiu
Ninguém sabe aonde.


A Mouzinho de Albuquerque

Tinhas o germe odioso dos tiranos
O fogo sinistro da intolerância
Mas que era feito duma só palavra
Herói soberbo
Ó árvore gigantesca
Que tu próprio abateste
Em vez dos deuses
Que te contemplam a distância

Alberto Lacerda


Alberto de Lacerda (Ilha de Moçambique, 20 de Setembro de 1928 — Londres, 26 de Agosto de 2007) foi um dos fundadores da revista de poesia Távola Redonda, juntamente com Ruy Cinatti, António Manuel Couto Viana e David Mourão-Ferreira.
O espólio do Poeta encontra-se em Lisboa, na Fundação Mário Soares.


Notícia do falecimento de Alberto Lacerda, no Times

Nota sobre Alberto Lacerda no Independent


Alberto Lacerda_Rui Filipe _1962.jpgRetrato de Alberto Lacerda,
pintura de Rui Filipe (1962)

Publicado por samartaime às 10:25 AM | Comentários (0)

abril 02, 2009

LEONARD COHEN, 1979



Era bem claro, nessa noite,
o quanto a sua música
se afastava de «other forms
of boredom advertised as poetry»,
denúncia que se mantem válida.

Não serão bússolas duradouras
- tudo, enfim, falece -,
mas são palavras que nos protegem
da avalanche dos dias e dos meses,
destas poucas horas a que chamamos nossas.

Uma maneira de voltar a morrer?
Talvez,
quando até nas cinzas encontrarmos lume.

Manuel de Freitas

Publicado por samartaime às 03:39 PM | Comentários (0)

março 31, 2009

MEREDITH MONK, 2008


Por estes dias sobre a terra
em que pudemos ouvir
a voz do vento,

a alegria decepada
ou reconstruída
em cada gesto,

je vous salue, Meredith.

Manuel de Freitas

Jukebox 2, Ed.Teatro de Vila Real, 2008.

Manuel de Freitas.jpg

Publicado por samartaime às 12:36 PM | Comentários (0)

março 30, 2009

Louise Labé



SONETO

Baise m'encor, rebaise-moi et baise ;
Donne m'en un de tes plus savoureux,
Donne m'en un de tes plus amoureux :
Je t'en rendrai quatre plus chauds que braise.

Las ! te plains-tu ? Çà, que ce mal j'apaise,
En t'en donnant dix autres doucereux.
Ainsi, mêlant nos baisers tant heureux,
Jouissons-nous l'un de l'autre à notre aise.

Lors double vie à chacun en suivra.
Chacun en soi et son ami vivra.
Permets m'Amour penser quelque folie :

Toujours suis mal, vivant discrètement,
Et ne me puis donner contentement
Si hors de moi ne fais quelque saillie.




ELEGIA

Quand vous lirez, ô Dames Lyonnoises,
Ces miens écrits pleins d'amoureuses noises,
Quand mes regrets, ennuis, dépits et larmes
M'orrez chanter en pitoyables carmes,
Ne veuillez point condamner ma simplesse,
Et jeune erreur de ma folle jeunesse,
Si c'est erreur. Mais qui dessous les Cieux
Peut se vanter de n'être vicieux ?
L'un n'est content de sa sorte de vie,
Et toujours porte à ses voisins envie ;
L'un, forcenant de voir la paix en terre,
Par tous moyens tâche y mettre la guerre ;
L'autre, croyant pauvreté être vice,
A autre Dieu qu'Or ne fait sacrifice ;
L'autre sa foi parjure il emploiera
A décevoir quelqu'un qui le croira ;
L'un, en mentant, de sa langue lézarde,
Mille brocards sur l'un et l'autre darde.
Je ne suis point sous ces planètes née,
Qui m'eussent pu tant faire infortunée.
Onques ne fut mon oeil marri, de voir
Chez mon voisin mieux que chez moi pleuvoir ;
Onq ne mis noise ou discorde entre amis ;
A faire gain jamais ne me soumis ;
Mentir, tromper, et abuser autrui,
Tant m'a déplu, que médire de lui.
Mais, si en moi rien y a d'imparfait,
Qu'on blâme Amour : c'est lui seul qui l'a fait.
Sur mon vert âge en ses lacs il me prit,
Lorsqu'exerçais mon corps et mon esprit
En mille et mille oeuvres ingénieuses,
Qu'en peu de temps me rendit ennuyeuses.
Pour bien savoir avec l'aiguille peindre,
J'eusse entrepris la renommée éteindre
De celle-là qui, plus docte que sage,
Avec Pallas comparait son ouvrage.
Qui m'eût vue lors en armes fière aller,
Porter la lance et bois faire voler,
Le devoir faire en l'étour furieux,
Piquer, volter le cheval glorieux,
Pour Bradamante, ou la haute Marphise,
Soeur de Roger, il m'eût, possible, prise.
Mais quoi ? Amour ne put longuement voir
Mon coeur n'aimant que Mars et le savoir ;
Et, me voulant donner autre souci,
En souriant, il me disait ainsi :
Tu penses donc, ô Lyonnaise Dame,
Pouvoir fuir par ce moyen ma flamme ?
Mais non feras, j'ai subjugué les Dieux
Es bas Enfers, en la Mer et ès Cieux.
Et penses-tu que n'aye tel pouvoir
Sur les humains, de leur faire savoir
Qu'il n'y a rien qui de ma main échappe ?
Plus fort se pense, et plus tôt je le frappe.
De me blâmer quelquefois tu n'as honte,
En te fiant en Mars, dont tu fais conte ;
Mais maintenant, vois si, pour persister
En le suivant, me pourras résister.
Ainsi parlait, et tout échauffé d'ire,
Hors de sa trousse une sagette il tire,
Et, décochant de son extrême force,
Droit la tira contre ma tendre écorce :
Faible harnais pour bien couvrir le coeur
Contre l'archer qui toujours est vainqueur.
La brèche faite, entre Amour en la place,
Dont le repos premièrement il chasse,
Et, de travail qu'il me donne sans cesse,
Boire, manger et dormir ne me laisse.
Il ne me chaut de soleil ne d'ombrage ;
Je n'ai qu'Amour et feu en mon courage,
Qui me déguise et fait autre paraître,
Tant que ne peux moi-même me connaître.
Je n'avais vu encore seize Hivers,
Lorsque j'entrai en ces ennuis divers ;
Et jà voici le treizième Eté
Que mon coeur fut par Amour arrêté.
Le temps met fin aux hautes Pyramides,
Le temps met fin aux fontaines humides :
Il ne pardonne aux braves Colisées,
Il met à fin les villes plus prisées ;
Finir aussi il a accoutumé
Le feu d'Amour, tant soit-il allumé.
Mais, las ! en moi il semble qu'il augmente
Avec le temps, et que plus me tourmente.
Pâris aima OEnoné ardemment,
Mais son amour ne dura longuement ;
Médée fut aimée de Jason,
Qui tôt après la mit hors sa maison.
Si méritaient-elles être estimées,
Et, pour aimer leurs Amis, être aimées.
S'étant aimé, on peut Amour laisser,
N'est-il raison, ne l'étant, se lasser ?
N'est-il raison te prier de permettre,
Amour, que puisse à mes tourments fin mettre ?
Ne permets point que de Mort fasse épreuve,
Et plus que toi pitoyable la treuve ;
Mais si tu veux que j'aime jusqu'au bout,
Fais que celui que j'estime mon tout,
Qui seul me peut faire plorer et rire,
Et pour lequel si souvent je soupire,
Sente en ses os, en son sang, en son âme,
Ou plus ardente, ou bien égale flamme.
Alors ton faix plus aisé me sera,
Quand avec moi quelqu'un le portera.


200px-Louise_Lab%C3%A9.png
(c. 1520 ou 1522, Lyon - April 25, 1566, Parcieux-en-Dombes)

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março 21, 2009


[...]
Eu trabalho nas luzes antigas, em frente
das ondas da noite. Bato a pedra
dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.
É uma raíz seca, canta-se
no calor. É uma idade cor da salsa.
Amarga. Imagino
dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.
Procuro uma imagem dura.

Estou sentado, e falo da ironia de onde
uma rosa se levanta pelo ar.
A idade é uma vileza espalhada
no léxico. Em sua densidade quebram-se
os dedos. Está sentada.
Os poentes ciclistas passam sem barulho.
Passam animais de púrpura.
Passam pedregulhos de treva.
É para a frente que as águas escorregam.

Idade que a candura da vida sufoca,
idade agachada, atenta
à sua ciência. Que imita por um lado
as nações celestes. Que imita
por um lado a terra
quente.
Trabalhando, nua, diante da noite.


Herberto Helder
Ofício Cantante, Lugar, Teoria sentada,III

Herberto_Helder2 por Jose Rodrigues.jpg
Herberto, segundo José Rodrigues

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março 19, 2009



DSCN1685.JPG
samartaime, oleo s/tela, 2007.

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março 16, 2009

António Boto

(Abrantes, 17 de Agosto de 1897 — Rio de Janeiro, 16 de Março de 1959)


Versos desencontrados


Em nada ou em ninguém
Eu deveria acreditar!
Nem no amor, nem na vida. - As ilusões,
Mesmo até quando vêm disfarçadas
E já conhecem o cliente, hesitam,
E chegam a partir envergonhadas...
As ilusões -
Também têm os seus mais preferidos;
E àqueles que ficaram na ruína
Do pensamento, e são - por graça de conquista
Os pálidos mortais desiludidos,
A esses já não correm muito afoitas
Na mentira das grandes fantasias!
- É por isso que eu hoje ainda vivo
À margem das ridículas tragédias
Que lemos nos jornais todos os dias.

Atulham-se os presídios; no degredo,
Atados à saudade, vão ficando,
- Como lesmas ao luar, esses que matam,
E pelo amor tombaram na desgraça:
- Um sonho, um beijo, uma mulher que passa!
Só a guitarra os lembra ao triste fado
Nos ecos diluídos e chorosos
E fundos do lusíada, coitado!
Eu olho para tudo que enxameia
Nesta viela escura da existência
Como quem se debruça num abismo
E fica revolvendo a consciência
Na tristeza infinita de um olhar!...
- A humanidade é vil e o seu egoísmo
Tem base na vileza de vexar.

Sim;
Por qualquer coisa os homens tudo vendem:
Palavra, dignidade, a própria vida,
Só porque desconhecem a doutrina
Bendita de Jesus; - esse tesoiro,
Essa fonte de luz onde aprendi
A ser leal e amigo e a respeitar
Aquela que nos risos do meu lar
Desembaraça os fios de uma queixa
No mistério que cinge o verbo amar.

Mas quando um ano acaba e outro vem,
Embora a minha fronte e os meus cabelos
Envelheçam na marcha para o fim
E um sabor de renúncia e de cansaço
Vibre, cantando, aqui, dentro de mim,
Rebenta-me no peito uma esperança
Tão lúcida, tão viva, e tão ungida
Na fé que ponho erguendo a minha prece -
Que peço a Deus do fundo da minha alma
Que a todos os que sofrem neste mundo
Dê o conforto de uma vida calma.

António Botto

botto1.jpg

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março 10, 2009

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samartaime,oleo s/tela, 2008.

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março 08, 2009



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Samartaime, «recordando», óleo s/tela, Lisboa,13.JUN.2000.






Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Herberto Helder
Ofício Cantante - A colher na boca; tríptico II

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março 04, 2009



DSCN1672 AA.JPG
Samartaime,óleo s/tela.2004



Os filhos da época


Somos os filhos da época,
e a época é política.
Todas as coisas - minhas, tuas, nossas,
coisas de cada dia, de cada noite
são coisas políticas.
Queiras ou não queiras,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um brilho político.
O que dizes tem ressonância,
o que calas tem peso
de uma forma ou outra - político.
Mesmo caminhando contra o vento
dos passos políticos
sobre solo político.
Poemas apolíticos também são políticos,
e lá em cima a lua já nao dá luar.
Ser ou não ser: eis a questão.
Oh, querida que questão mal parida.
A questão política.
Não precisas nem ser gente
para teres importância política.
Basta ser petróleo, ração,
qualquer derivado, ou até
uma mesa de conferência cuja forma
vem sendo discutida meses a fio.
Enquanto isso, os homens se matam,
os animais são massacrados,
as casas queimadas,
os campos se tornam agrestes
como nas épocas passadas
e menos políticas.

Wislawa Szymborska
Trad. Ana Cristina Cesar

Wislawa Szymborska.jpg
Prémio Nobel da Literatura em 1996
Polónia
Mais informação sobre a autora, no modo de usar

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março 01, 2009

Figos

A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-Io em quatro, pegando no pedúnculo,
E abri-Io para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,
desabrochada em quatro espessas pétalas.


Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
E colhe-se a flor com os lábios.

Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.


Cada fruta tem o seu segredo.
O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é
uma fruta feminina.


Os italianos apelidam de figo os órgãos sexuais da fêmea:
A fenda, o yoni,
Magnífica via húmida que conduz ao centro.
Enredada,
Inflectida,
Florescendo toda para dentro com suas fibras matriciais;
Com um orifício apenas.


O figo, a ferradura, a flor da abóbora.
Símbolos.


Era uma flor que brotava para dentro, para a matriz;
Agora é uma fruta, a matriz madura.


Foi sempre um segredo.
E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para sempre
secreta.


Nunca foi evidente, expandida num galho
Como outras flores, numa revelação de pétalas;
Rosa-prateado das flores do pessegueiro, verde vidraria veneziana
das flores da nespereira e da sorveira,
Taças de vinho pouco profundas em curtos caules túmidos,
Clara promessa do paraíso:
Ao espinheiro florido! À Revelação!
A corajosa, a aventurosa rosácea.


Dobrado sobre si mesmo, indizível segredo,
A seiva leitosa que coalha o leite quando se faz a ricotta,
Seiva tão estranhamente impregnando os dedos que afugenta as
próprias cabras;
Dobrado sobre si mesmo, velado como uma mulher muçulmana,
A nudez oculta, a floração para sempre invisível,


Apenas uma estreita via de acesso, cortinas corridas diante da luz;
Figo, fruta do mistério feminino, escondida e intima,
Fruta do Mediterrâneo com tua nudez coberta,
Onde tudo se passa no invisível, floração e fecundação, e maturação
Na intimidade mais profunda, que nenhuns olhos conseguem
devassar
Antes que tudo acabe, e demasiado madura te abras entregando
a alma.


Até que a gota da maturidade exsude,
E o ano chegue ao fim.


O figo guardou muito tempo o seu segredo.
Então abre-se e vê-se o escarlate através da fenda.
E o figo está completo, fechou-se o ano.


Assim morre o figo, revelando o carmesim através da fenda púrpura
Como uma ferida, a exposição do segredo à luz do dia.
Como uma prostituta, a fruta aberta mostra o segredo.


Assim também morrem as mulheres.



Demasiado maduro, esgotou-se o ano,
O ano das nossas mulheres.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.
Foi desvendado o segredo.
E em breve tudo estará podre.

Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.


Quando no seu espírito Eva soube que estava nua
Coseu folhas de figueira para si e para o homem.
Sempre estivera nua,
Mas nunca se importara com isso antes da maçã da ciência.

Soube-o no seu espírito, e coseu folhas de figueira.
E desde então as mulheres não pararam de coser.
Agora bordam, não para esconder, mas para adornar o figo aberto.

Têm agora mais que nunca a sua nudez no espírito,
E não hão-de nunca deixar que o esqueçamos.


Agora, o segredo
Tornou-se uma afirmação através dos lábios húmidos e escarlates
Que riem perante a indignação do Senhor.


Pois quê, bom Deus! gritam as mulheres.
Muito tempo guardámos o nosso segredo.
Somos um figo maduro.
Deixa-nos abrir em afirmação.


Elas esquecem que os figos maduros não se ocultam.
Os figos maduros não se ocultam.
Figos branco-mel do Norte, negros figos de entranhas escarlates do Sul.
Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.
Que fazer então quando todas as mulheres do mundo se abrirem na
sua afirmação?
Quando os figos abertos se não ocultarem?


D. H. Lawrence
in As Magias
versão portuguesa de Herberto Helder

200709211056260_d%20h%20lawrence.jpg HerbertoHelder_nome.jpg

Publicado por samartaime às 10:43 PM | Comentários (0)

fevereiro 26, 2009



P1000001_A.JPG
samartaime, «nós», tecnica mista s/tela.1972.

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fevereiro 23, 2009

Quatro Poemas de Robert Schindel

versão portuguesa de João Barrento
publicados na revista Telhados de Vidro, nº11, Novembro 08;
Ed. AVERNO


ESTILHAÇOS, INFÂNCIA

Era a infância, eram cenas de morte
Enforcaram-me o pai – primeira parte.
E veio a mãe do campo de concentração
Passou-me a mão pelo Eu, mas eu já não

Estava lá, deambulava por paixões
Desmoronaram-se as escolas, fortalezas
Da vida. E os ventos de rebeliões
Nasceram delas, e ondas de fraquezas

Fui cair entre os filhos do Homem
Depressa tive sonhos avermelhados
Beijos de camaradas com palavras de ordem.

Vão até à infância as sombras do futuro
Das árvores de Marx e Lenine, toldando-me o presente:
Hoje fumo e faço filhos com as pedras ancestrais.


LAMENTO À SOMBRA DE AVES ASTRAIS

Nos becos da cidade, em tempo
De rostos leitosos e também já de abutres
Os que a desolação deixou vazios
Ciciam de dentro das suas vidas de cera
O seu falso saber. O grito palavroso

E assim os sóis atravessam miríades de estrelas, destinos,
As árvores ácidas gemem sob o peso da estranheza
E nós nunca estamos neste aqui, neste agora
Jamais. É o embate
Da folhagem da alma com os astros.

Por todo o lado se ouve o grasnar
Dos que habitam o ermo do mundo
Chegam-nos por alamedas bocejantes
Seres de cinza que sobem dos becos
Da cidade no tempo dos abutres

- E o pensamento azeda-se-me no coração.


REQUIEM POR UMA AMIZADE

Morreu o meu hóspede, vejo-o ainda a descer, a descer
Pelo caminho abaixo com a distância nos cabelos,
E de noite, quando as estrelas o permitem, serpenteia, serpenteia
O seu eco no coração, morreu o meu hóspede.

Um riso, um sapato, o violino de estar aqui
Bebíamos um copo ou dormíamos nas palavras mais novas
E havia segundos que fazíamos explodir
Saltar a lama do tempo, para assim o podermos entender.

Agora foi-se, o seu nome descansa, descansa o tempo
Levanto os pés do caminho e vou andando
Às arrecuas pelo atalho, o eco traz-me
O longe e o perto, eu e nunca, o hóspede amigo do lado de lá.

Há por aqui outras paisagens?, perguntam por vezes as crianças.
Eu parto o caminho em pedaços e ofereço-lhes
Serpentinas, serpentinas, que elas recebem como maçãs e papoilas.
Porque tempos houve em que dormíamos nas palavras,
Tempos houve em que fazíamos explodir o tempo.


SOU. 7 (BÊBADO E SEM NORTE)

Bêbado e sem norte aqui estou eu nesta cidade do Meno
Virgula de mim próprio num intervalo da respiração
Queria afundar-me neste ar, mas estou aí completamente só
Bêbado e sem norte a sufocar dentro de mim

Ora, Março passa depressa, crescem as trevas
Da noite minha cúmplice tão grande
Nas cintilações, tão pequena assustada pela luz
E eu suo e sofro enregelado neste lusco-fusco

E sou e sou até à exaustão, não sei ser de outro modo
Sem norte e bêbado, apetece-me gritar o que me rói
Me corrói com murmúrios que me martela como se eu fosse coisa
Mas ai de mim, eu sofro, de lágrima no vinho

E saio para o grande espaço do entre, frio e aprazível
E – enfim apaziguado - volto a encontrar-me


robert schindel.jpg

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fevereiro 11, 2009


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Samartaime, sem título, óleo s/tela. 1985.




Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?


Eugénio de Andrade

eugénio.bmp


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fevereiro 05, 2009



Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade

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«Ausência»



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Samartaime, «Ausência», técnica mista. 1964.

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janeiro 21, 2009

Escudos humanos


Num intervalo de comentar
a guerra – Bassorá, não esperes
piedade – lembrou-se de lhe perguntar
por Ulisses; se não recordava,
dos tempos de escola, nomes
e episódios cantados na Ulisseia.

«Dá-me outras palavras», pediu
quem o escutava, «não conheço
Portugal de Norte a Sul».
Pois não; nascera em Moçambique
há cinquenta anos e confundia
a guerra de Tróia com a vaga
aparição de golfinhos em Setúbal.
Mas tinha visto Uma Ulisseia
no Espaço. Seria isso?

Dois homens, numa taberna,
enquanto chovia. O terceiro
era eu: aquele que escreve
e não escreve este poema. Entretanto,
Ulisses veio comprar tabaco,
cerveja e pão. Os longos cabelos,
caindo sobre um blusão negro,
as botas cardadas desafiando a chuva.

Não será por acaso que estamos
na rua Cesário Verde, número trinta
(desculpe, senhor Costa, esta publicidade toda).
A noite e o ódio vêm de novo abençoar
o inferno desigual de todos,
a apagada e vil cerveja que nos junta.

Penélope bem pode esperar.
Esse dano colateral
a que chamamos angústia
serve de montada às Bolsas do Ocidente,
no estertor da última cruzada.

«Até amanhã». Nada podemos fazer.
Oferecemo-nos como escudo
ao peso inútil de mais um dia.
A guerra já está ganha,
a morte é garantida e um poema,
infelizmente, não é uma arma química.


Manuel de Freitas

A Flor dos Terramotos - ed.Averno [010]

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janeiro 20, 2009

paisagem apócrifa

DSC_0016_N.JPG
samartaime, «paisagem apócrifa», óleo s/tela, 1981.

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dezembro 14, 2008

Rembrandt_bathing-river.jpg

Rembrandt van Rijn (1606-1669)
1654 - «Hendrickje Bathing in a River»
Oil on panel - 61.8 x 47 cm
National Gallery, London.

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outubro 13, 2008


acordei bemol
tudo estava sustenido

sol fazia
só não fazia sentido

( Paulo Leminski )


DSC_0116 A.JPG


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julho 07, 2008

Pastoral


Quando era mais jovem
tinha a certeza
que devia fazer algo da minha vida.
Agora, mais velho,
caminho por vielas
admirando as casas
dos muito pobres:
telhados desengonçados
pátios cheios de
velho arame de capoeiras, cinzas,
móveis desconjuntados;
as cercas e os anexos
construidos com aduelas
e tábuas de caixotes, todos,
com alguma sorte,
sujos de um verde-azulado
cuja pátina
me agrada mais
que qualquer cor.

    Ninguém
acreditará que isto
seja tão importante para a nação.


William Carlos Williams

Trad. de José Agostinho Baptista





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julho 04, 2008


FLORES`À BEIRA DO MAR

Quando sobre a nítida, florida orla da
pastagem, o oceano invisível e salgado

ergue a sua forma - chicória e margaridas
atadas, soltas, quase não parecem flores

mas somente cor e movimento - ou talvez a
forma - do desassossego, enquanto

fechado em circulo o mar se move tranquilamente
como um planta sobre o caule


William Carlos Williams

Trad. José Agostinho Baptista


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junho 19, 2008

«samartaime»





Aqui esteve um video que não é possível gravar no blogue, apesar da redução efectuada.



Publicado por samartaime às 07:39 PM | Comentários (0)

junho 04, 2008

Não são bailarinos, mas...



Ginastas no Lago dos Cisnes



Publicado por samartaime às 09:56 AM | Comentários (0)

junho 03, 2008

Bowles, Paul



1945 Bowles.jpg (1945)



Cena IX

Aqui está a matéria. Ainda não te desossaram.
Aqui está a cascata e o grilo.
Mexe um dedo. Grita. Faz um esgar –
A pesada respiração da terra contém o desespero.

Aqui estão as bocas fechadas na sua mudez, os ossos insensíveis.
Inveja as árvores com a sua dor, decepa os anos que hão-de vir.
Destrói a águia do vale, afoga o grito do clarim –
A mente transformou-se em escorpião e vive entre as pedras.

Tudo o que a vontade quer são as tesouras e a esponja,
A coroa de úlceras, a imunidade.
Uma voz estrangeira sussurra nos quartos
E interminável é o penetrante garrote do sol.



Polémica

Concordo inteiramente com o que dizes.
Quando as nuvens e as palavras se separam
O ar estremece e o cosmos fragmenta-se.
Enquanto não se conhecer a intenção
Nenhum caminho será descoberto.
A Índia era pó, um leopardo à sombra de uma pedra.
Cheguei à entrada da cidade
E aí estava ela, branca, à luz do sol.

As paisagens são absurdas enquanto não se aceitam.
Salaamed humedeceu os lábios e colou-os ao pó.
Ele é o vale e o vale é ele.
Mas até à morte negar-te-ei o direito de o dizer.

Na tradução [de novo brilhante ] de José Agostinho Baptista.

Publicado por samartaime às 11:26 PM | Comentários (0)

maio 22, 2008

DELÍRIO EM VERACRUZ



Para onde foi a ternura, perguntou ele ao espelho
Do Biltmore Hotel, quarto 216. Ah,
Poderá o seu reflexo, ali encostado ao vidro,
Perguntar para onde fui, para que horror?
É esse reflexo o que agora me contempla com terror
Atrás da tua frágil barreira inclinada? A ternura
Estava aqui, neste mesmo aposento, neste
Lugar, com a sua forma vista por ti, com os seus gritos
Escutados por ti. Que erro
Há aqui? Sou essa imagem fendida, precipitada?
É este fantasma do amor aquilo que reflectias?
Agora com um fundo de tequila, beatas, colarinhos sujos,
Perborato de sódio, um rascunho
Para os mortos, um telefone desligado?
... Estilhaçou todos os vidros do quarto. (Conta:$50)


Malcolm Lowry

( Trad. [brilhante!] de José Agostinho Baptista )

Publicado por samartaime às 11:50 PM | Comentários (0)

maio 19, 2008



espreita1.jpg
samartaime, «Aniversário», óleo s/tela.
Sem dimensão, sem tempo nem lugar.
Algures, numa colecção particular.




Publicado por samartaime às 07:32 PM | Comentários (0)

maio 16, 2008

Já os pesadelos


[ What a perfect day to think about myself./ The The]

Os sonhos dos homens assemelham-se entre si.
Já os pesadelos, cada um tem o seu.
Durante muitos anos eu fui hóspede do frio.
Enrolava cigarros para depois da chuva
e não tinha sonhos, somente pesadelos.

O mais recorrente era o do nevoeiro:
ninguém me via, era inútil mandar vir
uma caneca de cerveja, no café.
O meu dinheiro ninguém o aceitava,
ficava parado, fazia de mim um acumulador.

Como nunca saía de casa, não sabia falar
senão com mortos. Parecia-me magia
saber responder boa tarde como vai
à saudação dos vizinhos, pedir do vazio
ao homem do talho, perguntar as horas.

Tempos amargos esses, e hoje,
a mesma coisa, a mesma solidão.
Com a diferença de que sou mais forte agora,
vou à piscina duas vezes por semana,
escrevo poemas para não adormecer.


José Miguel Silva

PL004~Musician-in-the-Rain- Robert Doisneau.jpg
Foto Robert Doisneau «Musician in the Rain»

Publicado por samartaime às 10:50 PM | Comentários (0)

maio 13, 2008




Eram de longe.
Do mar traziam
o que é do mar: doçura
e ardor nos olhos fatigados.

Eugénio de Andrade


03 ria.JPG
(foto samartaime)

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maio 10, 2008



Noite vertebrada 2.jpg


Do Medo I

É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(Ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)
Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de um flauta eternizou
no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida
é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte

Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde
(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)
desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite
sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins
e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne

Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor
há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem
Quando nos será possível um suicídio exacto
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis?

Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte.


Luiza Neto Jorge
(1939-1989)



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maio 07, 2008

Pina Bausch



café muller

Bandonéon

The Man I love (Gershwin)

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maio 03, 2008



Meredith Monk - Gotham Lullaby [experimental / contemporary]


Publicado por samartaime às 06:29 PM | Comentários (0)

maio 02, 2008

Matisse e a dança



matisse_dance_moma_1909.jpg
1909 - MOMA, Nova Yorque.


Matisse -dance_hermitage.jpg
1910 - Hermitage, Petrograde.

... prefiro, mesmo, a mais antiga!

Publicado por samartaime às 08:20 PM | Comentários (0)



dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

Al Berto

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Publicado por samartaime às 06:55 PM | Comentários (0)

abril 15, 2008

Poesia Sem Qualidade... de vida



Apontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Fernando Pessoa , via Álvaro de Campos,1929


Minibiografia

Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.

Luiza Neto Jorge, via A Lume, 1989


Contra os optimistas

Chamam destino ao rifão do acaso
e chamam à fraude boa fortuna.
Crêem no Batman e na Virgem Maria.
Duvidam do frio, não da polícia
e nunca dão crédito àquilo que vêem.

Reservam a tempo um lugar na geral,
põem o pé entre duas ciladas
e ficam a rir-se nas fotografias.
Sujam a roupa tal como nós, mas
mandam-na sempre a lavandarias
que sabem tratar dos casos difíceis.

Nunca dão ponto sem antes o nó,
mas fazem um laço por cima do nó.
Compram revistas de aval científico
em cujos artigos se prova o seguinte:
é quase impossível determinar
se é falsa uma lágrima ou se é verdadeira.

Depois, jantam em grupo, falam dinheiro,
guiam a vida por grandes veredas e ouvem
sininhos, muitos sininhos de música sacra.

José Miguel Silva, via Ulisses Já Não Mora Aqui, 2002

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março 21, 2008

O Sítio em Visita

Trazem as árvores insignificantes
o maior distúrbio aos ventos; arredam-nos,
alçam outros armazéns sonoros
casas de relâmpagos e de cataclismos.

Chega-se. Parte-se. Segreda-se
de seres indeterminados que movem
resistência. Pelejam mais.

E quando a sua pele se usa vence
a moda, mudança de uma árvore para a mundanal
outra árvore carregada.


Podem aliás irromper quentes florestas.
Abate-se sobre o lenhador a opulência, o triunfo
do fruto desenvolvido no seu trono
iluminado por quatro archotes de seiva.


Há no mundo inteiro uma, quando muito, rua
difícil de encontrar.

São os campos, gente humílima, absorta em grãos
de areia, praia inequívoca onde,
na estação tardia, os do mar se deitam.
Algumas folhas, de livros, assinalam o ponto.
Algumas cartas, de marear,
não chegam.


Criaturas que se reproduziam em interstícios
que se deitavam em divâs
cada vez mais estreitos

a luminosa vocação, a luminosidade
de uma terra sábia e rotunda
suplantava aqueles gritos portadores
de uma defunta órfica voz

Eram as criaturas presas ,
do seu século
retraídas nos olhos mal afeiçoados

Filhos mais velhos a atentarem
em como o corpo incha e se perfaz a polpa
como o limite se delimita corpo a corpo
e engorda

Cobriam-se as folhas de uma letra hirsuta
e os mais novos sorriam como lábios.


Luiza Neto Jorge

in Os Sítios Sitiados


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março 16, 2008

Maya Plisetskaya


Maya Plisetskaya / Ravel "Bolero" (Part 1)

Maya Plisetskaya / Ravel "Bolero" (Part 2)

Informação biográfica

Internation Maya Foundation

Moscow Honors Bolshoi's 'True Queen'

ballerina gallery

gala des etoiles

Honoring Russia's 'prima, prima' ballerina

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março 07, 2008

Lowry & Liszt ou José Agostinho Baptista & Horowitz



Fantasmas nas casas novas

Há algo de assustador nos fantasmas das casas novas:
Os fantasmas das casas velhas já são maus quanto baste:
Mas os fantasmas das casas novas são terríveis.
A grande novidade destas novas e desoladas casas
Já seria bem terrível sem os fantasmas.
Mas os fantasmas também são novos.
Raparigas tristes com blusas azuis
E pessoas nos seus assados de Domingo
Sob a grande luz do dia, dentro destas casas novas
Em ruas onde os homens varrem o vidro partido.

Malcolm Lowry

(Trad. José Agostinho Baptista)


Horowitz

Liszt:Consolation No.3 in D flat major

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fevereiro 26, 2008

Do desencanto

A day and a day

Dois ou três cancros de que
vais sabendo «há pouco a fazer»),
o amigo maior de um amigo
brutalmente esmagado debaixo
de um camião. Não, não está a ser
propriamente um Inverno de contentamento.

O corpo já quase não responde
a tanta tristeza. E a casa, devagar,
fecha-se para dentro, implode. Parece
um coração, uma metáfora que te deixa
nos ombros um irrepetível cheiro a merda
e a sombra de um gato que vai morrer.

(«É a vida», deve pensar sem cérebro
- mais feliz - o teu companheiro
de jantar. Já lhe chamaste silêncio,
mas ninguém se chama assim,
ferindo o preto e branco da memória.
Assoa-se, pelo contrário, ao guardanapo
sujo de tinto da casa e acena-te com caspa
da sua vaga imortalidade. Na outra mesa, do
corpos sussurram o inevitável calão do amor,
Muita gente, afinal, cabe neste mundo.

Da porta do bar saem depois alguns
engates e avós calcinadas
à terceira caipirinha. Um preto de óculos
que bebeu de mais acaba espancado
no passeio, sob o fervor policial do costume.

Custa ver - a vida, outro bar vazio,
sem quadros, onde beijas a ausência,
tudo o que perdidamente desamas
e não vale a pena e se dissipa sem pressa
no copo de cicuta cuja razão desconheces.)

É possível que Joachim Bernhard Hagen
tenha sido um exímio tocador do instrumento
que às vezes preferes. É um modo de acordar,
no fundo, e de perceber na pele a inutilidade
da manhã, os gestos que não serão ainda
esse amplo terreno de morte
- que depois
circunscreves a um poema
e não voltas a dormir. Odeio-te.

Ode à noite (inteira)

Gosto do momento, exacto ou nem por isso,
em que se torna possível colar cartazes
nas paredes ao lado dos meus ombros (espero
o autocarro, vejo devagar, sorrio). Mas
gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas
- ou das pessoas que desconheço
e das bebidas todas que ignoro
(porque me matam menos e se chamam
- como eu - insónia, pesadelo, golpe baixo).

Existem, claro, raparigas louras um tanto
heteredoxas que não te apetece beijar
(a forca do bâton, perfeita - o cigarro aceso
pedindo outro lume). Essas mesmas que hão-de
um dia procriar com zelo, evitando rugas,
tumores e o mundo como representação misógina.
Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas,
com a cerveja a premiar a farda
demasiado verde e os bigodes de serviço.

Outros, alguns, tornam concreto o torpor
de um charro e pedem-te em crioulo básico
um cigarro português que tu vais dar,
sem esforço nem palavras. Entre shots, piercings,
t-shirts de Guevara e gel, podes não acreditar
por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.
Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
qualquer, país de enganos e baratas. E
quase gostas disso, quase: a música de punhais,
servil, um certo e procurado desencontro.
Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
- ou o seu contrário, pois só ali (anónimo
e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.

O resto, a vida, fica para outra vez.


Manuel de Freitas

Noite.JPG
(Foto samartaime)


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fevereiro 18, 2008

As casas

CasasVelhas5 A.JPG
samartaime, «As casas» (005), óleo s/tela, (50X60), 1963. (Col. part.)


As casas

( I )

As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas

Luiza Neto Jorge

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janeiro 30, 2008

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond Andrade.jpg

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janeiro 09, 2008

Centenário do nascimento de Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir (9:JAN:1908 - 14:ABR:1986)


«On ne naît pas femme, on le devient. »

beauvoir.jpg


Simone de Beauvoir- 50º aniversário de «Le Deuxième Sexe »

Simone de Beauvoir in «The Internet Encyclopedia of Philosophy»

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dezembro 13, 2007

Foz do Tejo, um país

O rio não dialoga senão pela alma
de quem o olha e embebeu a sua alma
de olhares ribeirinhos no passado
ou à flor do pensamento no futuro.

É um país que fala dentro da fronte,
olhando as naus, navios, barcos pesqueiros
e o trilho das famintas aves pintoras
de riscos negros, que perseguem o odor
das redes cheias, as outrossim poéticas
familiares gaivotas. É uma costa inteira
de imagens de gaivotas dentro dos olhos.
São bocas a pensar razões da vida,
gargantas já caladas pela nascença e morte,
quando entre si se vêem ou juntas olham
o mar dos seus próprios dias. São cabeças
velhas de labutar, entre dentes cerrados,
as palavras mudas de um ofício no mar,
antigas de silêncio, como se no esófago
guardassem há muito a sabedoria de ir
enfrentar o mar, transpor o mar, estar.

Tal como um rio o mar só quer falar
pela dor e alegria de alma com que o chama,
há séculos na orla, um povo mudo,
com as palavras presas, guturais sem fôlego,
dentro de si, tão firmes no palato, articuladas
na língua interior. E o mar é quieto ou bravo,
e a alma tensa de uma paixão secreta,
escondida atrás da boca, e sempre aberta,
tal como as pálpebras diante desta água.

Só a alma sabe falar com o mar,
depois de chamar a si o Rio, no imo
de cada um, recordações, de todos
os que cumprem na linha da costa o seu destino.
O de crianças, berços nascidos à beira-mar,
aleitadas por água marinha bebida por rebanhos,
alimentadas por frutos regados pela bruma.
Mesmo quando petroleiros, se olharmos o mar,
passam sem som na glote, para nós mesmos dizemos
que o tempo já findou das caravelas outrora
e dentro do nosso sangue passa o tempo de agora.

Também as vacinas, fenícias áfonas no poema
que as canta, sabem as formas, pelo olhar,
de serem mulheres com peixes à cabeça.
E os pregões que eu calo, revendo-as, eram outra
língua do mar, os nomes com que nos chamam
para o seu modo de levar entre as casas o mar.
Mas as dores não as ecoa o mar, nem mesmo
as de poetas, só as pancadas das palavras
no encéfalo parecem ser voz do mar.

É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós. Glórias, misérias,
que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma.

Fiama Hassa Pais Brandão

Dezembro de 1997

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novembro 20, 2007

Pier Paolo Pasolini

Pasolini 001.jpgPasolini 003.jpg
( Bolonha, 5 de março de 1922 - assassinado em Ostia, 2 de novembro de 1975 )


Trasumanar e organizzar
Garzanti editore

«Hierarquia»

Se chego numa cidade
além do oceano
Chego muitas vezes numa cidade nova, transportado pela dúvida.
Convertido de um dia pro outro em peregrino
de uma fé na qual não creio;
representante de uma mercadoria há muito depreciada,
mas é grande, sempre, uma estranha esperança --
Desço do avião com o andar culpado,
o rabo entre as pernas, e uma necessidade eterna de mijar,
que me faz caminhar um tanto vergado com um sorriso incerto --
Safar-se da alfândega e, muitas vezes, dos fotógrafos:
administração de rotina que cada um trata como exceção.
Depois o desconhecido.
Quem passeia às quatro da tarde
ao longo dos canteiros cheios de árvores
e pelos bulevares de uma cidade desesperada onde europeus pobres
vieram recriar um mundo à imagem e semelhança do deles,
forçados pela pobreza a fazer de um exílio a vida?
De olho no meu trabalho, nos meus deveres --
Depois, nas horas vagas,
começa minha busca, como se também ela fosse culpa --
A hierarquia está porém bem clara na minha cabeça.
Não há Oceano que resista.
Dessa hierarquia os últimos são os velhos.
Sim, os velhos, a cuja categoria começo a pertencer
(não falo do fotógrafo Saderman que com sua mulher
amiga já da morte me acolhe sorrindo
no pequeno estúdio de toda a sua vida)
Sim, existem alguns velhos intelectuais
que na Hierarquia
se colocam à altura dos michês mais bonitos
os primeiros a serem encontrados nos lugares que a gente logo descobre
e que como Virgílios nos conduzem com popular delicadeza
alguns velhos são dignos do Empíreo,
são dignos de figurar junto ao primeiro garoto do povo
que se dá por mil cruzeiros em Copacabana
ambos são o meu guia
que me segurando pela mão com delicadeza,
a delicadeza do intelectual e a do operário
(além do mais desempregado)
a descoberta da invariabilidade da vida
requer inteligência e amor
Vista do hotel da rua Resende Rio --
a ascese precisa do sexo, do caralho --
aquela portinhola do hotel onde se paga o cubículo --
se olha o Rio por dentro, numa aparência da eternidade,
a noite de chuva que não refresca,
e banha as ruas miseráveis e os escombros,
e as últimas cornijas do liberty dos portugueses pobres
milagre sublime!
E portanto Josué Carrea é o Primeiro na Hierarquia,
e com ele Harudo, que veio criança da Bahia, e Joaquim.
A favela era como Cafarnaum sob o sol --
percorrida pelos regos dos esgotos
barraco sobre barraco
vinte mil famílias
(ele na praia me pedindo cigarro como um prostituto)
Não sabíamos que pouco a pouco nos revelaríamos,
prudentemente, uma palavra após a outra,
dita quase distraidamente:
sou comunista, e: sou subversivo;
sou soldado numa divisão especialmente treinada
para lutar contra os subversivos e torturá-los;
mas eles não sabem;
ninguém se dá conta de nada;
só pensam em viver
(me falando do subproletariado)
A Favela, fatalmente, nos esperava
eu, grande conhecedor, ele, guia --
seus pais nos acolheram, e o irmãozinho nu
recém-saído de trás do oleado --
pois é, invariabilidade da vida, a mãe
conversou comigo como Maria Limardi, me preparando uma limonada
sagrada do hóspede; a mãe de cabelos brancos mas ainda jovem na carne;
envelhecida como envelhecem os pobres, embora moça;
sua gentileza e a de seu companheiro,
fraternal com o filho que por sua exclusiva vontade
era agora como um mensageiro da Cidade --
Ah, subversivos, procuro o amor e encontro vocês.
Procuro a perdição e encontro a sede de justiça.
Brasil minha terra,
Terra dos meus verdadeiros amigos,
Que não se ocupam de nada
Ou se tornam subversivos e como santos ficam cegos.
No círculo mais baixo da Hierarquia de uma cidade
imagem do mundo que de velhos se fez novo,
coloco os velhos, os velhos burgueses,
porque um velho proletário da cidade continua sempre moço
Não tem nada a perder --
anda de calção e camiseta como o filho Joaquim.
Os velhos, a minha categoria,
queiram eles ou não --
Não se pode fugir do destino de possuir o Poder, ele se coloca sozinho
lenta e fatalmente nas mãos dos velhos,
mesmo que tenham as mãos furadas
e sorriam humildemente como mártires sátiros --
Acuso os velhos de terem apesar de tudo vivido,
acuso os velhos de terem aceitado a vida
(e podiam não aceitá-la, mas não existem vítimas inocentes)
a vida se acumulando deu o que queria dar --
acuso os velhos de terem feito a vontade da vida.
Voltemos à Favela
onde as pessoas ou não pensam em nada
ou querem se tornar mensageiras da Cidade
ali onde os velhos são filo-americanos --
dentre os jovens que jogam bola com bravura
em frente a cumeeiros encantados sobre o frio Oceano,
quem quer alguma coisa e sabe que quer, foi escolhido por acaso --
inexperientes em imperialismo clássico
em qualquer delicadeza para com o velho Império a ser desfrutado
os Americanos separam uns dos outros os irmãos supersticiosos
sempre aquecidos por seu sexo como bandidos por uma fogueira de sarças
É assim por puro acaso que um brasileiro é fascista e um outro é subversivo;
aquele que arranca os olhos
pode ser tomado por aquele a quem se arrancam os olhos.
Joaquim não poderia jamais se distinguir de um fascínora.
Por que então não amá-lo se o fosse?
Também o fascínora está no vértice da Hierarquia,
com seus traços simples apenas esboçados
como seu olho simples
sem outra luz que não a da carne
Assim no cume da Hierarquia
encontro a ambigüidade, o nó inextricável.
Ó Brasil, minha desgraçada pátria,
devotada sem escolha à felicidade
(de tudo o dinheiro e a carne são donos
enquanto tu és assim tão poético)
dentro de cada habitante teu, meu concidadão,
existe um anjo que não sabe de nada,
sempre debruçado sobre seu sexo,
e, velho ou jovem, se apressa
a pegar em armas e lutar,
indiferentemente, pelo fascismo ou pela liberdade --
Ó Brasil, minha terra natal, onde
as velhas lutas -- bem ou mal, já vencidas --
para nós, velhos, voltam a fazer sentido --
respondendo à graça dos delinqüentes ou dos soldados
à graça brutal.

(Tradução de Michel Lahud)

pierpaolo1975.jpg


Aqui: quase tudo sobre Pasolini

Lamento per la morte di Pasolini , Giovanna Marini

Alberto Moravia - Orazione funebre per la Morte di Pasolini

Pasolini sulla morte di Marilyn Monroe (from La Rabbia)

Oedipus the King Part 1

Callas & Pasolini - Medea (the film)

Pasolini's Trilogy of Life - 3 preview trailers

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outubro 25, 2007

INÊS LOURENÇO :
os cornos pelos nomes no cieiro da ternura

KAPA_Ines 2.jpg
[Capa:VST/OF sobre fundo de William Morris]

Avulso

O sr. Moura abria o maço de Português
Suave sem filtro, para vender cinco cigarros
avulso a um homem de boné. O sr. Moura
chamava discretamente o amigo polícia, ao fundo
da loja para lhe oferecer um tinto, embora
não tivesse alvará para
servir vinho a copo.

Muito do que hoje se
compra por inteiro
em embalagem certificada
e com prazo de validade, era
vendido avulso, desde
o quartilho de leite, às postas
de bacalhau de molho, aos
cinco tostões de goma arábica
ou à folha de papel almaço.

Ainda se vivia sem o plástico, e os
cartuchos de cinza pardo, sob o
olhar do merceeiro de lápis na orelha,
eram pesados na balança pelo
marçano de manguitos
e bata de riscado, que aviava
os meios-quilos, a meia-dúzia,
o quarteirão.

Um anónimo de fato coçado e
velho chapéu de feltro, vinha todos
os quinze dias trazer o novo
fascículo das Duas Órfãs ou
de Os Miseráveis. As putas
ainda não andavam a atacar
na rua
, mantinham-se no
lendário 515 e noutros números
indecentes - que as mulheres honestas fingiam
desconhecer - sujeitas
à enzemina da brigada sanitária
para quem trabalhavam de graça . Os
pobres
estendiam as mãos escuras à saída
da missa ou tocavam no batente
a pedir qualquer coisinha. E cresciam
filas para as sobras do rancho
à porta dos quartéis.

(Chegados a este ponto
de Avulso, os leitores
amantes de ambiguidades
várias ou da luminosa literatice mística,
devem estar à procura
do rigor poético)

Mas esse tempo do fim
dos anos 40
trazia a profecia embargada de uma
diferença qualquer. Que juntasse
ao menos os fascículos de
As Duas Órfãs e de Os Miseráveis e os
20 cigarros do Português Suave sem filtro.
Unisse as putas contra a brigada
sanitária. Que nos deixasse
esbanjar o papel almaço. Transformasse
o quarto de quilo de sabão amarelo
numa lâmpada de Aladino
e deitasse ao lixo os pedaços de
pão seco sem medo do pecado
do desperdício.

Hoje tudo está muito diferente?
E muito semelhante? Fascículos e
embalagens, dias e noites
avulso são agora o ar do tempo
e as formas de desejar.

Narram os novos fascículos, que
as Duas Orfãs
fizeram implantes mamários
para gravarem a próxima telenovela,
fornicam com empresários de sucesso e
vão de Férias às Caraíbas.





Ítaca sem gatos

Nenhum gato reconheceu Ulisses no
seu regresso a casa. Nem consta
que algum brincasse com os novelos
que a mulher dobava e desdobava
durante a longa ausência para
iludir os pretendentes. Por isso
me soa estranha a Odisseia e o
regresso a Ítaca sem o festivo içar
da cauda dum gato






Amáveis (de amar)

D. Fuas o gato de Jorge de Sena e
Coral o gato de Sophia ou
a gata Maravilhas de
João Miguel Fernandes Jorge e os
de tantos outros como Baudelaire ou Eliot,
amáveis (de amar) mas ferozmente
independentes, olham-nos
dos poemas com aquelas luzentes e atentas
contas de vidro (podia aqui comparar com ágatas
ou opalas, mas não quero entrar
no joalheiro).

Eles são talvez os mais puros
aristocratas entre os animais de companhia.
Tratam do próprio pêlo com minuciosos cuidados,
mesmo que não tenham casa certa e
até na extrema míngua conservam
uma distante prudência e unhas afiadas
de quem não se vende facilmente.
E é tanta a sua generosa fidalguia
que nunca desprezam a mão assídua
que lhes afaga o dorso e partilha
o sedentário desprezo do mundo,
mesmo doente velha ou caída em desgraça

INÊS LOURENÇO
in «A disfunção lírica»


Inês&MariaTobias.jpg

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outubro 14, 2007

Auto-retrato

Para onde quer que vá
já lá estive
o que quer que faça
não posso decidir
quem quer que eu ame
é uma parte
por muito que morra
fico com vida


Eva Christina Zeller
(Trad. de Teresa Dias Furtado)

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outubro 13, 2007

Seis poemas de Paulo Leminsk

Apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme.

Haicai

a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença


Amor Bastante

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto


Não Discuto

não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino

Bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas


Rosa Rilke Raimundo Correia

Uma pálpebra,
Mais uma, mais outras,
Enfim, dezenas
De pálpebras sobre pálpebras
Tentando fazer
Das minhas trevas
Alguma coisa a mais
Que lágrimas

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setembro 17, 2007

Jocelyn Pook

Donne musicanti

Migraña

How sweet the moonlight- Andreas Scholl

National Theatre / Saint Joan / Bernard Shaw

Mais informação sobre Jocelyn Pook :


Jocelyn Pook - minibiografia

Jocelyn Pook - Obras

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agosto 23, 2007

águamãe.JPG

Sofia Lourenço (piano)- Carlos Seixas, Minuet fa menor.
foto «Samartaime»


FONEMA

Agora que as sílabas estão vagas
dos fonemas tépidos que habitei na tua larva
esse teu nome,
tua descrição sumária e tua máscara,
presença e ausência sendo a pele
da mutação constante sendo ente,
lento é ainda entre os lábios e as gengivas
esse trajecto de umbilical sutura,
deserdando a garganta que regressa
do futuro do passado e do presente
numa página virada e transparente
hábito que desabito lentamente.

Inês Lourenço

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junho 19, 2007


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Paula Rego, Ciclo da Virgem

Pegue-se no tacho pela asa
ponha-se ao lume
com tampa.
Depois
vá almoçar fora.

No regresso
tire a tampa ao tacho:
bom proveito!

Manuela Imar




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Ah, diz-me a verdade acerca do amor


Há quem diga que o amor é um rapazinho,
E quem diga que ele é um pássaro;
Há quem diga que faz o mundo girar,
E quem diga que é um absurdo,
E quando perguntei ao meu vizinho,
Que tinha ar de quem sabia,
A sua mulher zangou-se mesmo muito,
E disse que isso não servia para nada.

Será parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?
O seu odor faz lembrar o dos lamas,
Ou tem um cheiro agradável?
É áspero ao tacto como uma sebe espinhosa
Ou é fofo como um edredão de penas?
É cortante ou muito polido nos seus bordos?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Os nossos livros de história fazem-lhe referências
Em curtas notas crípticas,
É um assunto de conversa muito vulgar
Nos transatlânticos;
Descobri que o assunto era mencionado
Em relatos de suicidas,
E até o vi escrevinhado
Nas costas dos guias ferroviários.

Uiva como um cão de Alsácia esfomeado,
Ou ribomba como uma banda militar?
Poderá alguém fazer uma imitação perfeita
Com um serrote ou um Steinway de concerto?
O seu canto é estrondoso nas festas?
Ou gosta apenas de música clássica?
Interrompe-se quando queremos estar sossegados?
Ah! diz-me a verdade acerca do amor.

Espreitei a casa de verão,
E não estava lá,
Tentei o Tamisa em Maidenhead
E o ar tonificante de Brighton,
Não sei o que cantava o melro,
Ou o que a tulipa dizia;
Mas não estava na capoeira,
Nem debaixo da cama.

Fará esgares extraordinários?
Enjoa sempre num baloiço?
Passa todo o seu tempo nas corridas?
Ou a tocar violino em pedaços de cordel?
Tem ideias próprias sobre o dinheiro?
Pensa ser o patriotismo suficiente?
As suas histórias são vulgares mas divertidas?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Chega sem avisar no instante
Em que meto o dedo no nariz?
Virá bater-me à porta de manhã,
Ou pisar-me os pés no autocarro?
Virá como uma súbita mudança de tempo?
O seu acolhimento será rude ou delicado?
Virá alterar toda a minha vida?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.


W.H. Auden

(Trad. Mª de Lourdes Guimarães)

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junho 16, 2007

Ainda Bukowski

Bukowski-Words.gif

buktype.jpg


uma palavrinha sobre os fazedores de poemas rápidos e modernos

é muito fácil parecer moderno

enquanto se é o maior idiota jamais nascido;

eu sei ; eu joguei fora um material horrível

mas não tão horrível como o que leio nas revistas;

eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais

que não me deixará fingir que sou

uma coisa que não sou-

o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa

na poesia

e o fracasso de uma pessoa

na vida.

e quando você falha na poesia

você erra a vida,

e quando você falha na vida

você nunca nasceu

não importa o nome que sua mãe lhe deu.

as arquibancadas estão cheias de mortos

aclamando um vencedor

esperando um número que os carregue de volta

para a vida,

mas não é tão fácil assim-

tal como no poema

se você está morto

você podia também ser enterrado

e jogar fora a máquina de escrever

e parar de se enganar com

poemas cavalos mulheres a vida:

você está entulhando a saída- portanto saia logo

e desista das

poucas preciosas

páginas.


buk_55.jpg

Charles Bukowski

(Trad. de Jorge Wanderley, Bertrand Brasil, 2003 )


Publicado por samartaime às 11:22 AM | Comentários (0)

junho 03, 2007

AOS INTENSOS


Eles despovoam as superfícies e inventam
a geometria dos espaços, confundem
a pele com o Cosmos, nos jogos de água
do fogo e da madeira.

Desistiram de acreditar no fim
e no princípio
por que o tempo é eterno, e a pulsação
é teia de luas contínuas
e cegueiras vivas de encarar o sol.

Nativos da partida, gastam os passos
até ao próximo éden,
onde eva, adão e a serpente
serão provavelmente desconhecidos.


Inês Lourenço

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junho 02, 2007

Gustav Klimt

Publicado por samartaime às 08:46 AM | Comentários (0)

maio 31, 2007

barcomorto 9.JPG
Foto «samartaime»

Os barcos escondem-se para morrer
sob a areia mais rente ao dia
num desenho angustiado de conchas
sinais esquálidos do pálido marfim
da lassidão do tempo
lavrada
no passajar do sol.
Pequenas águas espelham brilhos
abrigam pratas     contam ventos
enredam-se algas     singram búzios
debicam garças e flamingos
partem insaciáveis
as gaivotas.

E um cavalo marinho desliza
os seus olhos tristes.


Manuela Imar

Publicado por samartaime às 11:20 AM | Comentários (0)

maio 10, 2007

CHARLES BUKOWSKI

buk05.jpg

question and answer


he sat naked and drunk in a room of summer
night, running the blade of the knife
under his fingernails, smiling, thinking
of all the letters he had received
telling him that
the way he lived and wrote about
that--
it had kept them going when
all seemed
truly
hopeless.

putting the blade on the table, he
flicked it with a finger
and it whirled
in a flashing circle
under the light.

who the hell is going to save
me? he
thought.

as the knife stopped spinning
the answer came:
you're going to have to
save yourself.

still smiling,
a: he lit a
cigarette
b: he poured
another
drink
c: gave the blade
another
spin.


Charles Bukowski


buk09.jpg


Bukowski nasceu em Andernach (Alemanha) em 1920, como Heinrich Karl Bukowski. Filho de alemã e de um soldado americano, a família mudou-se para Los Angeles quando Bukowski tinha dois anos de idade. É em Los Angeles que faz os seus estudos primários e é graduado pelo Los Angeles High School. Após o Liceu, Bukowski continua estudos no Los Angeles City College onde, durante dois anos, frequenta cursos de arte, jornalismo e literatura.
O Poeta, também contista e romancista, faleceu em Los Angeles em Março de 1994, depois de ter escrito mais de 50 livros e milhares de publicações baratas e de ter «corrido mundo» a ler os seus poemas que escandalizaram assembleias de simples, de snobs, de académicos e outros intelectuais. Na sua campa, deixou-nos um aviso: «Don't Try!»

buk08.jpg

short order


I took my girlfriend to your last poetry reading,
she said.
yes, yes? I asked.
she's young and pretty, she said.
and? I asked.
she hated your
guts.
then she stretched out on the couch
and pulled off her
boots.

I don't have very good legs,
she said.

all right, I thought, I don't have very good
poetry; she doesn't have very good
legs.

scramble two.

buk10.jpg

Mais sobre Bukowski:

Comentários sobre a poesia

Poesia de Bukowski em Português

S&Y -Charles Bukowski

«O amor é um cão do inferno»

Publicado por samartaime às 12:19 AM | Comentários (0)

maio 08, 2007

Retrato do Artista em Cão Jovem

Com o focinho entre dois olhos muito grandes
por trás de lágrimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade
com uma dor adolescente
de esquina para esquina cada vez maior
latindo docemente a cada lua
voltando o focinho a cada esperança
ainda sem dentes para as piores surpresas
mas avançando a passo firme
ao encontro dos alimentos

aqui estás tal qual
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava
o cão de circo para os domingos da família
o cão vadio dos outros dias da semana
o cão de sempre
cada vez que há um cão jovem
neste local da terra

António José Forte

Publicado por samartaime às 03:02 PM | Comentários (0)

Os sumérios eram sumários



os sumérios eram sumários
e por isso foram sumírios
daí vem que foram semírios
mírios de se ou de si

os sumírios eram sumários sendo sumério
e daí vem que foram sumiros
sumaros e sumêros

os sumários eram suma dos
é daí que vem o sumo
a soma e a suma-a-uma

os sumórios eram sumêdos
porque eram semudos
e mudos de se ou de si
eram sumúrios

os sumúrios eram semílicos
simólicos e simulados
daí vem que amaram a sêmula
a súmula
e o tacão alto

Ana Hatherly


Publicado por samartaime às 12:24 AM | Comentários (0)

maio 02, 2007

A QUE CUIDA

Aquecuida.jpg


A HORA DO LANCHE


Na mão de Ana o iogurte não
iluminava, escurecia,
comunhão ajoelhada
no fundo do coração do dia

imemorial onde, desperto, ele dormia.
O movimento da colher embalava-o
como uma música que quase se ouvia
neste mundo ou como o colo que o adormecia.

A tarde declinava, as sombras,
como sombras, alongavam-se na almofada;
tudo fazia um sentido
literal e simples, onde não pode a poesia.

Se alguma coisa ficara
por dizer já não iria ser dita;
as palavras tinham-se sumido, transidas,
no interior da casa, o próprio silêncio emudecera.

Senhor, permite que adormeçamos
antes que feches a luz e desça
sobre nós a tua escuridão,
que os rebanhos estejam recolhidos
e os credores se tenham afastado da nossa porta,
mas que tenhamos pago as dívidas aos que nos serviram
e aos que nos amaram e aos que nos esperaram;
as tuas grandes mãos sustentarão o telhado e as paredes,
e moerão o grão e fermentarão o trigo,
apaga com as tuas mãos para sempre o rasto
da nossa vida
e que repousemos enfim
sem motivo para nos culparmos
por não termos sido felizes.

Foz do Douro, 26 de Janeiro de 2005

Manuel António Pina

[Encontrado no blog VIDA INVOLUNTÁRIA . Aqui fica em Homenagem a Ana Maria Moura, a Eugénio
e a Manuel António Pina]

Publicado por samartaime às 10:39 AM | Comentários (0)

abril 30, 2007

Katharina van Hemessen

Mulher.jpg


Title/s
Portrait of a woman

Maker/s
Hemessen, Katharina van (painter) [ULAN info: Flanders painter, 1528-aft.1587]

Category
painting

Name
painting

School/Style
Flemish

Technique Description
oil on panel

Dimensions
height: 33 cm
width: 25 cm


Publicado por samartaime às 09:05 PM | Comentários (0)

março 09, 2007

Farinelli _ CarloBroschi

A voz do filme

Na impossibilidade de reproduzir Farinelli, a voz do filme foi paciente e cientificamente reconstruída em laboratório: é som digitalizado a partir do registo das vozes do countertenor Derek Lee Ragin e da soprano coloratura Ewa Godlewska - que usava técnicas de canto muito idênticas, especialmente no vibrato e na articulação.

«Farinelli» numa «Lascia la spigna, cogli na rosa» delirante

e agora, um «Farinelli» obtido com a voz de Cecília Bartoli:

Carlo Broschi - Farinelli (Puglia, 24 de janeiro de 1705 - Bolonha, 15 de julho de 1782)

Carlo_Broschi - Farinelli.jpg

Publicado por samartaime às 10:34 PM | Comentários (0)

fevereiro 23, 2007

Hoje, Luiza Neto Jorge ...

Minibiografia

Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.


Luiza Neto Jorge


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... e Zeca Afonso


zeca33sw.gif


zeca89.jpg

Publicado por samartaime às 01:33 PM | Comentários (0)

fevereiro 14, 2007

O «pormenor» de Ingres...

ipormenor.jpg

Publicado por samartaime às 04:46 PM | Comentários (0)

fevereiro 13, 2007

ingres_grand_odalisque.jpg
Ingres, 1814, «La Grand Odalisque», óleo s/tela, Musée du Louvre, Paris

Publicado por samartaime às 12:51 PM | Comentários (0)

janeiro 22, 2007

FIAMA, para sempre

Quando eu vir vaguear por dentro da casa
o abeto que cresceu no bosque, hei-de
ajoelhar no soalho. Todas as coisas
comunicam entre si a totalidade das suas formas.
A mão que vai surgir do abeto apontará para mim.

Tenho de despir as tiras de brocado que envolvem as veias,
as cadeias de ouro dos rins. Deixar
que as unhas longas da árvore passem
entre mim e o imo dos quartos interiores da casa.

Se essa figura imponente, a árvore, me reconhecer,
vou interromper o que escrevo, esperar ansiosa
atracção que a insónia desse vulto
há - de exercer sobre mim. Rodo
até à tontura da morte.
Torturo-me
até à alegria. Encontro na casa
o tema da despossuição e a agonia.

A pobreza antiga com que o corpo cai
para uma vala. Preso apenas às pérolas
que tinem nas orelhas. Dante deixou-nos resvalar,
com os cânones clássicos, como se o poema
fosse uma escada. É-o, quando as figuras austeras
da Natureza perseguem os mortais. Querem confirmar
a sua configuração. Querem ser
reais, quando se aproximam.
Vai para diante da minha face, ao fundo.
Vem dos recantos, onde já não é a silhueta volúvel
enovelada pelo vento, à janela. Com lentidão
arrasta a forma táctil até à passagem do poema.

Sou eu que me vergo ao domínio.
Que me poise a marca incandescente na testa.
Tocará na meninge como num cofre.
Aceito coroas para depor sobre mim.
Deixo os pés do abeto empurrar
com a biqueira violetas. A fragrância
delas leva-me a imaginar poemas
em branco. Depois de percorrer um longo encadeamento
de sílabas sou outra. Vejo assomar a natureza nua.

 

Foz do Tejo, um país

O rio não dialoga senão pela alma
de quem o olha e embebeu a sua alma
de olhares ribeirinhos no passado
ou à flor do pensamento no futuro.

É um país que fala dentro da fronte,
olhando as naus, navios, barcos pesqueiros
e o trilho das famintas aves pintoras
de riscos negros, que perseguem o odor
das redes cheias, as outrossim poéticas
familiares gaivotas. É uma costa inteira
de imagens de gaivotas dentro dos olhos.
São bocas a pensar razões da vida,
gargantas já caladas pela nascença e morte,
quando entre si se vêem ou juntas olham
o mar dos seus próprios dias. São cabeças
velhas de labutar, entre dentes cerrados,
as palavras mudas de um ofício no mar,
antigas de silêncio, como se no esófago
guardassem há muito a sabedoria de ir
enfrentar o mar, transpor o mar, estar.

Tal como um rio o mar só quer falar
pela dor e alegria de alma com que o chama,
há séculos na orla, um povo mudo,
com as palavras presas, guturais sem fôlego,
dentro de si, tão firmes no palato, articuladas
na língua interior. E o mar é quieto ou bravo,
e a alma tensa de uma paixão secreta,
escondida atrás da boca, e sempre aberta,
tal como as pálpebras diante desta água.

Só a alma sabe falar com o mar,
depois de chamar a si o Rio, no imo
de cada um, recordações, de todos
os que cumprem na linha da costa o seu destino.
O de crianças, berços nascidos à beira-mar,
aleitadas por água marinha bebida por rebanhos,
alimentadas por frutos regados pela bruma.
Mesmo quando petroleiros, se olharmos o mar,
passam sem som na glote, para nós mesmos dizemos
que o tempo já findou das caravelas outrora
e dentro do nosso sangue passa o tempo de agora.

Também as vacinas, fenícias áfonas no poema
que as canta, sabem as formas, pelo olhar,
de serem mulheres com peixes à cabeça.
E os pregões que eu calo, revendo-as, eram outra
língua do mar, os nomes com que nos chamam
para o seu modo de levar entre as casas o mar.
Mas as dores não as ecoa o mar, nem mesmo
as de poetas, só as pancadas das palavras
no encéfalo parecem ser voz do mar.

É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós. Glórias, misérias,
que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma.

 

Sistema solar

Cada voz tem o seu contraponto
num ruído natural. Cada silêncio,
no silente espaço que rodeia, por vezes,
cada coisa. À beira do berço as bocas
percutem sobre a criança. Depois, no sono,
abrem-se como qualquer flor. Sobre
os cílios da adolescente tecem frases.

*

À beira do berço as bocas
percutem sobre a criança. Depois no sono
adensam-se como qualquer árvore. Sobre
os cílios da adolescente tecem frases.
Cada silêncio corporiza-se no espaço.
As coisas têm eixos e rodam
com ruídos diferentes do seu nome.
E o Sol tramonta entre vestígios,
além dos montes e vales e o mar.

*

E o Sol tramonta sobre as nossas casas
e os montes e vales e o nosso mar.
Quando um verso marca o lugar das coisas
elas aí ficam para sempre. O Sol
que perpassa em cumes e em cristas
nasce nas arestas serranas do nascente
e vai até ao mar em sete versos.



FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

(15 :AGO:1938 - 19: JAN:2007)


Fiama 5.JPG Fiama 4.JPG


Publicado por samartaime às 12:52 AM | Comentários (0)

janeiro 20, 2007

RUTH BERNHARD

(1905 - 2006)

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Ruth Bernhard (foto de Larry Colwell )

Ruth Bernhard was born in Berlin in 1905. In 1927, after two years at the Berlin Academy of Art, Ruth moved to New York where she began to seriously pursue a career in photography. Eight years later she met Edward Weston in California and was deeply moved by his work. He revealed to her the profound creative potential of photography and its artistic implications. Desiring to work with him, she moved to the West Coast shortly thereafter.

In 1953, she moved to San Francisco and became a colleague of Ansel Adams, Imogen Cunningham, Minor White and Wynn Bullock. She has lectured and conducted master classes throughout the United States through her 95th birthday.

Ruth Bernhard’s work can be found in most major museum collections throughout the world, including the George Eastman House, Museum of Modern Art in New York, The Metropolitan Museum of Art and the Bibliotheque

Straws_1930.jpg
«Straws», 1930

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«Early Nude», 1934

Embryo - 1934.jpg
«Embryo», 1934

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«One World», 1936

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«Creation», 1936

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«West Silk», 1938

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«Angel Wing», 1943

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«Triangles», 1948

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«Laguna Gate», 1950

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«Birdskull», 1950

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«At The Pool», 1951

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«Classic Torso With Hands», 1952

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«Pigeons of 'Frisco», 1956

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«In The Box», 1962

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«Folding», 1962

Golden Light_1962.jpg
»Golden Light», 1962

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«Lumin Body», 1962

Two Forms_1963.jpg
«Two Forms», 1963

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«Prespective II », 1967


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«Cross Over», 1969

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«Death Valley», 1969

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«Symbiosis», 1971

Veiled Black_1974.jpg
«Veiled black», 1974


Ruth_Bernard.gif Ruth Bernhard

RB.jpg Ruth Bernhard

RBby Paul WWaldman_1991.jpg Ruth Bernhard - foto de Paul Waldman, 1991

iRBby Mona Kuhn_2000.jpg Ruth Bernhard - foto de Mona Kuhn, 2000

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Ruth Bernhard - foto de Rene Carufel

Biografia e enquadramento do obra de Ruth Bernhard, aqui

Mais informação complementar

Sobre algumas exposições

 

Obrigada My precious thing, por me teres lembrado dela! .

Publicado por samartaime às 10:46 PM | Comentários (0)

janeiro 18, 2007

A casa do mundo

Aquilo que às vezes parece

um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sangúíneos.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida:


( Luiza Neto Jorge )

Publicado por samartaime às 07:44 PM | Comentários (0)

dezembro 08, 2006

«Vim-me» embora pra Pasárgada ...

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-dágua
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada


(Manuel Bandeira )



Até para o ano! Aproveitem todas as festas e folias que o que se leva desta vista é a vida que a gente leva!

E para o ano, há mais... talvez não para comer - mas isso é outra música! Que venha o vira mais o malhão! De corridinho!

Publicado por samartaime às 10:25 AM | Comentários (0)

dezembro 01, 2006

AGORA QUE DE NOVO


O mar voa nas rochas, como
se a manhã se formasse onde se forma o cuspo eu aproximo-me
dele e arde a pele de que a memória
vem lentamente tomar conta.

Avanço com cuidado, agora que de novo
nas praias o mar solta os cães. O que chamávamos
verão são poços através
dos quais se some a pele pela memória dentro.


Luís Miguel Nava

nava 2.jpg

Publicado por samartaime às 10:45 PM | Comentários (0)

novembro 26, 2006

Intervalo por Cesariny

cesariny 2.jpg

Samartaime:
Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.




Samartaime:
Afinal o que importa não é a literatura nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que
importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que
importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que
importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

e cair verticalmente no vício
Não
é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal
o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal
o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal
o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora!
– rir de tudo
No riso admirável
de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra




Segurademim:
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.




Samartaime:
Não há nada que tu faças
que te não faça imenso mal,
desde o uso das estrelas
ao abuso corporal.
Em volta de ti morre a morte
mas tu próprio não ficas inteiro
sorris de manhã à noite
como a um espelho fatal.
Cortas a vida aos pedaços
para ver se fica igual.
Não há nada que tu faças
que te não faça imenso mal.




Samartaime:
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco




Rapariga:
Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca

Mário Cesariny


lCesariny.bmp

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outubro 22, 2006

BARBARA HEPWORTH

(1903 - 1975 )

012_hepworth.jpg


Biolith_ barbara-hepworth.jpg
Biolith
Figura Chûn_ 1960 - barbara-hepworth.jpg
1960 - Figura (Chûn)
Four forms_ 1971_barbara-hepworth.jpg
1971 - Four forms
Installatipon_ 2002_barbara-hepworth.jpg
Installatipon

pelagos - Hepworth, Barbara.jpg
Pelagos
Square f0rms_barbara-hepworth.jpg
Square forms
Two forms_ _barbara-hepworth.jpg
Two forms
Two opposing forms_1969_barbara-hepworth.jpg
1969 - Two opposing forms
two_figures -  Hepworth, Barbara.jpg
Two figures

Mais informação aqui

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outubro 16, 2006

LOUISE NEVELSON

Loise Nevelson.bmp «L'art est partout, mais il doit passer par un esprit créatif. Mon univers est l'univers de ma réalité, mon univers est la création, c'est mon univers de réalité.» Louise Nevelson


Black Box_louise-nevelson.jpg
Black Box
Wood, board, paper and paint
h: 36 x w: 36 in / h: 91.4 x w: 91.4 cm

Black MooII_louise-nevelson.jpg
Black Mool

Mirror shadow III-detail)_louise-nevelson.jpg
Mirror shadow II (detail)

mirror shadow XV_louise-nevelson.jpg
Mirror shadow XV

Mirror-shadow XVI_louise-nevelson.jpg
Mirror-Shadow XVI
Wood painted black
h: 62 x w: 105 x d: 15 in / h: 157.5 x w: 266.7 x d: 38.1 cm


Moontide II_louise-nevelson.jpg
Moontide II
Wood (painted black)
h: 50 x w: 76 x d: 11 in / h: 127 x w: 193 x d: 27.9 cm


open zag VIII_louise-nevelson.jpg
Open Zag VIII
black painted wood
h: 50 x w: 62 x d: 8 in / h: 127 x w: 157.5 x d: 20.3 cm

The Drum_louise-nevelson.jpg
The Drum

Transoarent Sculture_louise-nevelson.jpg
Transparent Sculpture
Lucite and electric base
h: 32.5 x w: 25.5 x d: 8.8 in / h: 82.6 x w: 64.8 x d: 22.4 cm

Untitled II_louise-nevelson.jpg
Untitled II

untitled_louise-nevelson.jpg
Untitled
Wood, board, paper and paint
h: 36 x w: 36 in / h: 91.4 x w: 91.4 cm

Nevelson.jpg
«I have built a reality for myself.»

«Louise Berliawsky est né en 1899 à Kiev (Russie). Sa famille émigre aux Etats-Unis en 1905. Elle se marie en 1920, devient Louise Nevelson et commence, la même année, à apprendre le dessin, la peinture, le chant, l’art dramatique. A la fin des années 20, Louise Nevelson suit un enseignement à l’Art Students League de New York. Elle travaille par la suite avec Hans Hofmann à Munich (1931), puis, plus tard, avec Diego Rivera à New York et Mexico dont elle sera l’assistante sur certains projets.A partir de 1933, Nevelson expose gravures et peintures, montre pour la première fois son travail de sculpteur en 1936. Sa première exposition personnelle a été organisée en 1941. De 1949 à 1950, elle étudie la terre cuite, l’aluminium, le bronze au Sculpture Center, puis la gravure avec Stanley William Hayter à l’Atelier 17. Elle est, dans les années 50, l’un des premiers sculpteurs américains à présenter des assemblages. L’artiste enchâsse, dans des caisses empilées, des reliques de pièces de bois de toutes sortes, construisant ainsi des architectures abstraites, monumentales et baroques ; ces pièces, comme leur titre, suggèrent un monde imaginaire et poétique. Les premières sculptures de Louise Nevelson sont entièrement repeintes de noir mat ; elles deviendront plus lumineuses et lyriques par la suite, blanches ou or, l’artiste y incluant des miroirs ou du Plexiglas. Louise Nevelson , dans les années 80, répondra à la commande publique en découpant le métal en cases et fragments qu’elle assemble, créant ainsi de grandes sculptures urbaines. L’oeuvre de Louise Nevelson, qui a reçu tout au long de la carrière artistique de l’artiste des prix importants, fait aujourd’hui partie des collections muséales les plus importantes. Louise Nevelson est morte en 1988 à New York. »


nevelson 2.jpg (1899-1988)
Dvorak, «Slavonic Dance, nº8»

«Escultora norte-americana de origem ucraniana, nasceu em Kiev. Uma das mais criativas e fantásticas escultoras do séc. XX. Sofreu influência da arte pré-colombiana e as suas obras escapam a qualquer classificação, sendo de imediato identificadas. Trabalhou com os mais diversos materiais, desde alumínio ao bronze passando pelo pexiglás, cartão, madeira [chegando a utilizar móveis, cadeiras, portas e janelas da própria casa ]numa expressividade plástica a que se não pode ficar indiferente.»

Publicado por samartaime às 09:58 PM | Comentários (0)

outubro 10, 2006

GERMAINE RICHIER (1904 - 1959)

ou a escultura da angústia


Germaine Richier 01.jpg «Je suis plus sensible à un arbre calciné qu’à un pommier en fleurs»

Germaine 03- l orage.jpg
L' Orage
1947 - 1948
80 cm x 200 cm x 52 cm
Bronze
Centre Pompidou; Paris.

Germaine R  - L'eau.jpg
L'eau
1953 - 1954
62 cm x 147 cm x 98 cm
Bronze
Centre Pompidou, Paris


Germaine R - La montagne.jpg

Germaine R - La montagne B.jpg
La montagne
1955-1956
180cmX325cmX125cm
Bronze patiné
Centre Pompidou, Paris

Germaine R par Rogi André.jpg
Fotografia de Rogi André « Germaine Richier»

Germaine R - l'ouragane.jpg
L'Ouragane
1948 - 1949
179cmX67cmX50cm
Bronze
Centre Pompidou, Paris

Germaine R - Le diabolo.jpg
Le Diàbolo
1950
160cmX49cmX60cm
Bronze
Centre Pompidou, Paris.

Germaine Richier 02.jpg«La vie n’appartient pas toujours aux choses sereines»


Mais informação:

Germaine Richier

La mise en forme des forces de la nature ( Pierre Barbancey)

Germaine Richier ou la stratégie de la mante religieuse ( Arnaud Spire)


Publicado por samartaime às 02:42 PM | Comentários (0)

outubro 03, 2006

JANELA VOADORA

Música Sefardita


Ensemble Antequera, «Nani nani»

Flory Jagoda, «La Jave de Espanja»

Judy Frankel, «La vida do por el raki»

Lena Rothstein, «Dia de Shabbat»

Lija Hirsch y Gertru Pasveer, «Bendigamos»

Michele Baczynsky y Talita Koumi «Xinanay xinanay»

Ruth Yaakov Ensemble, «Salgash madre»

[ Com a colaboração da NA]
(Files retirados)

Mais informação sobre os Sefarditas :

Sefardita

Século de ouro dos Sefarditas

Canções e Romances Sefarditas

Do êxodo ao êxito dos Sefarditas


EXTRAPROGRAMA MAS DANADA DE COINCIDENTE : Pedro Álvares Cabral seria marrano?

Aceitam-se palpites, sugestões, pareceres, achegas, adendas, prolegómenos, prefácios e outras elucubrações. Quem ganhar terá direito a comer um pastel de nata na nave principal dos Jerónimos!

Dicas? Nanja eu, que sou adepta da Intifada de cebolada.

Pilantrhahmed Al Intifahd.jpg
Pilantrhahmed Al Intifahd (foto da clandestinidade)

Publicado por samartaime às 10:06 AM | Comentários (0)

julho 28, 2006

JANELA VOADORA

« SAFO DE MITILENE » :

um cdê diferente

AngeliqueNena 01.jpg

Poemas de Safo (*)
Música de Angelique Ionatos
Vozes de Angelique Ionatos e Nena Venetsanou

(*) Poemas de Safo transcritos para o grego moderno pelo poeta Odysseus Elytis (1911-1996)

ASTÉRON PANTON o kallistos (Angelique)


«De tous les astres le plus beau»

Vesper, ramenant tout ce qu’ avait disdpensé
L’Aurore lumineuse
Tu amènes la brebis, tu amènes la chèvre
Mais tu emmênes loin de sa mére l’ enfant!


GRIGORA I ORA pérassé (Nena e Angelique)

«L’ heure a si vite passée»

La lune
a fui
et les Plêiades
Il est minuit
L’ heure passe
et je suis couchée, seule
Eros qui donne la douleur
Eros qui tisse les mensonges
Eros encore a ébranlé mon coeur
comme un vent de montagne s’ abattant
sur les chênes


I MEN IPPION stroton (Nena)

«Pour les uns une armée à cheval»

Pour les uns une armée à cheval et pour
d’ autres à pied
ou une escadre: voilá, disent-ils, sur la terre
noire
ce qu’il y a de plus beau, mais pour moi
c’est
de voir quelqu’un d’aimer quelqu’un.


KI ANAMESSA se malaka (Angelique )


« Et sur une couche douce et moelleuse »
elle a éntendu son corps
celle qui dort sur les seins d’une tender
amie
Ah! Puisse cette nuit me durer
autant que deux nuits entières
Puisse-je , o Aphrodite à la couronne d’or,
du sort cette part obtenir

PALI PALI o érotas (Angelique e Nena)

De noveau l’ amour

Eros encore, le délieur de membres,
me secoue, doux-amer invincible animal,
Atthis, il t’est devenu odieux de penser
à moi, et vers Andromède tu voles

Eros qui donne la douleur
Eros qui tisse les mensonges
Eros encore a ébranlè mon coeur
comme un vent de montagne s’abattant
sur les chênes

[Files retirados]

Para conhecer melhor este trabalho, três links:

Angelique Ionatos

Nena Venetsanou

Odysseus Elytis


ionatos AA.jpg
Angelique Ionatos
venetsanou4.jpg

elytis.gif
Odysseus Elytis

Publicado por samartaime às 01:10 PM | Comentários (0)

julho 17, 2006

A inesperada antecipação das vindimas




INVERTE EURÍDICE
(1ª versão)

As tuas palavras transportam
o antigo e inapagável mito,
daquele que cantava a afugentar
a fera da tristeza e se atreveu
a descer ao incêndio da
desesperança eterna, para
salvar a quem amava.


A cinza fria é talvez o pior
dos dejectos. E escapar-lhe o
mais humano dos desígnios. Assim
retoma a tua corda, estrada
salvadora por cima das
mortíferas chamas do desânimo e
inverte essa euridice e o seu
fatal reflexo.Depois é sempre
o mais belo itinerário.

Inês Lourenço (inédito)


250px-Gustave_Moreau_Orph%C3%A9e_1865.jpg
Gustave Moreau, Orfeu.
Renee Fleming, Gypsy Melody ( Dvorak) (File retirado)




Para a Inês Lourenço:

MITO APÓCRIFO
(versão final)

Orfeu da amizade que nisso me reverti
por não ver nela menor qualidade.

Por certo as Mênades me esperam
já adiante

E também eu cumprirei o
mais humano dos desígnios
que a corda é mais forte em mim e o
Depois é sempre
o mais belo itinerário

dos eternos peripatéticos
tragicamente cantantes.

Manuela Imar

16:JUL:06







ATÉ ÀS VINDIMAS, AMIG@S !... QUE AS FÉRIAS NOS SEJAM MEIGAS E TENHAM ALGUM MAR!

Publicado por samartaime às 12:56 PM | Comentários (0)

julho 11, 2006

Bom dia!

Hoje eu queria cantar para os meus amig@s que estão tristes.
Hoje eu queria encher de música esta nesga de vida que sou
para ver um sorriso azul nos olhos dos meus amig@s que estão tristes.
Mas nem as palavras vejo, tenho , invento.
Que nestas horas de ser preciso ser capaz
não canto não rio não choro
sou merda.

Publicado por samartaime às 09:47 AM | Comentários (0)

junho 15, 2006

Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor


I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

(Hilda Hilst)

Hilda.jpg

Publicado por samartaime às 01:15 AM | Comentários (0)

maio 29, 2006

Chagal.jpg
Chagal, A mulher e as rosas


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

(Pablo Neruda )

Pablo%20Neruda.jpg

Publicado por samartaime às 11:22 AM | Comentários (0)

maio 23, 2006

Piero della Francesca

delparto.jpg

Madonna del parto
1467
Detached fresco
206 x 203 cm
Santa Maria a Nomentana, Monterchi

Publicado por samartaime às 07:53 PM | Comentários (0)

maio 17, 2006

e ao sétimo dia cumpriu-se o descanso

(Foto «samartaime», Lisboa, 2006)

mas...


Bom é que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade
É a sua timidez envergonhada
Entregai-vos ao travo doce das delicias
Que filhas são dos seus tormentos
Porém, não busqueis poder no amor
Que só quem da sua lei se sente escravo
Pode considerar-se realmente livre.

(Fernando Pessoa)


Dolores Pradera, abre tu balcon
(file retirado)

Publicado por samartaime às 09:34 PM | Comentários (0)

maio 06, 2006

Não sei como dizer-te que minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta. Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso e estremeces como um pensamento chegado. Quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante, e na terra crescida os homens entoam a vindima - eu não sei como dizer-te que cem ideiias, dentro de mim te procuram.
Quando as
folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a
primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios,
sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milgares
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
que te procuram.

HERBERTO HELDER

herberto_helder.jpg

Publicado por samartaime às 07:16 AM | Comentários (0)

abril 29, 2006

Hilda Hilst

Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia –
Manda-me dizer,
e o paraíso há de ficar mais perto,
e mais recente me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia tão longo como a noite.
Se é verdade que sem mim só vês monotonia
e se te lembras do brilho das marés
de alguns peixes rosados numas águas
e dos meus pés molhados,
manda-me dizer:
- é lua nova –
e revestida de luz volto pra te ver.

HILDA HILST
(1930- 2004)


Hilda.jpg

Publicado por samartaime às 07:34 PM | Comentários (0)

abril 15, 2006

Mais três poemas de António Maria Lisboa...

Vírgula

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções
pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida. Mais
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.


ANTÓNIO MARIA LISBOA

Publicado por samartaime às 01:38 AM | Comentários (0)

Comutador

Ergo-me de ti no zimbório
de folhas na penedia do castelo medieval
de limos na umidade da praia
de cristais entre os rochedos do Cabo Horn

Caminho de gelo na floresta
de sôfrego na vastidão do deserto
de louco na brancura do hospício

Eu abismo, eu cratera
inclinei-me e vi um espetáculo caprichoso: uma unha branca
uma unha branca a viver assim despreocupada

OGIVA-BORBOLETA
Arco-de-Cor caldo muito triste
Casulo de quem ninguém falou
Teia-de-Aranha exposta à loucura e ao tempo
Andorinha-Azul de chapéu mole e baratas na cama
VENTOINHA.

ANTÓNIO MARIA LISBOA

Publicado por samartaime às 01:27 AM | Comentários (0)

Conjugação

A construção dos poemas é uma
vela aberta ao meio e coberta de bolor é a
suspensão momentânea dum arrepio num dente fino Como
Uma Agulha A construção dos poemas
A CONSTRUÇÃO DOS POEMAS é como matar muitas pulgas
com unhas de oiro azul é como amar formigas
brancas obsessivamente junto ao peito olhar uma
paisagem em frente e ver um abismo ver o abismo e
sentir uma pedrada nas costas sentir a pedrada e
imaginar-se sem pensar de (repente NUM TÚMULO
EXAUSTIVO.

ANTÓNIO MARIA LISBOA

Publicado por samartaime às 12:48 AM | Comentários (0)

abril 11, 2006

As cinco letras em vidro

É um estilete de luz
a imensidade de que és feita
e contorna um azul-sonho-neve
igual aos cabelos que descobri a saírem da tua boca
- dos teus olhos de imaginação
- dos teus lábios curvos de aurora.

Saímos
enquanto as pessoas olhavam admiradas o Arco do Triunfo
deixando escorrer dos bolsos fitas e serpentinas
para tudo se passar como no pássaro
para deixar objectivamente escrito
nas margens do rio
do Mar
- o continente submerso
- o navio de todos os amantes
por onde rola a carruagem em que viajamos
pintada de Liberdade e de Poesia
contigo a dormir sobre o meu peito.

POR ISSO EU SENTI SER FÁCIL O SUICÍDIO
FÁCIL E POSSÍVEL.

Fixou-se no muro da tua residência
sobre a porta que se abre ao visitante
um símbolo mágico e de cabala
- a oportunidade do meu regresso
- a história maravilhosa que te direi na viagem.

Procurei
nas folhas espalhadas pelo nosso leito
a recordação do que há-de vir
- apenas no esparso
- no diverso
- no acto simultâneo de defesa
- no viajar de aeróstato incógnito de distância
- na noite mágica

NA PRIMEIRA GRANDE NOITE MÁGICA QUE NÓS
TIVEMOS.

Abriu-se a janela que caminhava sozinha
e saiu um sonho simples de criança:

O METEORO DA TRANSFORMAÇÃO

pousado a um canto o meu Jogo de Cabala

(um montinho de quadrados,
de círculos, de triângulos,
dispostos geometricamente
sobre um tabuleiro grande)

o meu Tratado de Magia Humana

(um caminho de ogivas, um
relógio a dar horas sobre
um túmulo em pé, os postes
magnéticos, os cordões da angústia)

FALO - no Laboratório Mágico ao dar-se a aparição espon-
tânea de Lautréamont e Freud que traziam sobre as
sobrancelhas um corte fino a atravessá-Ias lado a
lado: -
Ao aparecer a mulher escandalosamente
vestida de vermelho
ele dirige-se para a jovem
e os outros passeiam sobre as rochas
onde fica oculto o corpo do homem que chega continuamente
MUDO APONTA O HORIZONTE.

ANTÓNIO MARIA LISBOA

(1928 - 1953)

Publicado por samartaime às 12:32 AM | Comentários (0)

março 23, 2006

J A N E L A V O A D O R A

Dinah Washington (1924 - 1963)
Dinah-.jpg
Gary Kelley, «Jazz Diva - Dinah Washington», pastel.

Blue Gardenia
Invitation
Let's fall in love

Dinah images.jpg

E do famoso «A night at Birdland»,
com Art Blakey e Dizzy Gillespie

There goes my heart
What a difference a day made
Bitter Earth


Um fim de semana meigo e com beijos alegres, para tod@s

( files retirados)


Publicado por samartaime às 11:03 PM | Comentários (0)

dezembro 18, 2005

JANELA VOADORA

1.jpg

MARIA CALLAS
New York, 1923 - 1977, Paris


«Je veux vivre dans ce rêve»

Da ópera Carmen, de Bizet« L'amour»

(Files retirados)

Publicado por samartaime às 10:54 AM | Comentários (0)